"Empresa que respeita o ambiente costuma ter resultado melhor"

Fábio Barbosa: “Temos que estar com um olho no presente e outro no futuro. A Rio+20 está competindo em atenção com uma crise mais imediata”


Ele foi chamado, no passado, de "banqueiro verde" - e o adjetivo não era elogioso. 

Dez anos depois de ter garantido a fama de sustentável do banco ABN Amro Real, o administrador de empresas Fábio Barbosa, 57, ganhou o prêmio "Campeão da Terra 2012", o mais importante das Nações Unidas na área ambiental. 

"Diziam que o nosso negócio era só conceder empréstimos, não importa para quem", lembra. Antes dele, a única brasileira a ganhar o prêmio do Pnuma, o braço ambiental da ONU, foi a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. 

"Descobrimos que empresas que se preocupam também com aspectos ambientais costumam ter melhor performance financeira."

Barbosa, que presidiu o Real, o Santander Brasil e a Febraban - e agora é presidente da Abril S.A - diz que mesmo que a crise econômica tire o foco de atenção de chefes de Estado e empresários, a Rio+20 é um evento fundamental. 

"A Rio+20 está concorrendo com um tema urgente. E mais uma vez, o urgente toma lugar do importante", diz. 

"Acho que temos que estar com um olho no presente, a crise e tudo mais, e um olho no futuro." 

A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao Valor:

Valor: Como o sr. começou a se interessar por sustentabilidade?

Fábio Barbosa: Quando estava no ABN Amro Real começamos com um projeto de transparência na relação com os clientes e fornecedores. 

Nas várias áreas, cada um querendo contribuir com esta visão de transparência, surgiu a ideia que deveríamos olhar também a questão ambiental. 

A pergunta que eu fazia era: o banco é ou não é responsável pelo dano ao meio ambiente que possa ser causado por um cliente em função de um empréstimo que tenha sido feito? 

E a resposta que não se tem como escapar é que, independentemente de o banco ser legalmente responsável ou não, poderá ser considerado responsável pela sociedade. 

Fazer a coisa de uma forma transparente, também na questão dos empréstimos na área ambiental, foi mais uma perna deste grande projeto de sustentabilidade que norteava o Banco Real.

Valor: O sr. pode contar algum caso concreto?

Barbosa: As empresas contratam serviços de motoboy. Então, quando um deles morre é responsabilidade das empresas que o contrataram ou não? A nossa resposta foi sim, e fizemos um trabalho intenso neste sentido. A outra pergunta era: estamos financiando projetos de empresas que trabalham com corte de madeira indevido. Somos responsáveis por isso ou não? O caminho era provocar reflexões e entender que a resposta é: somos responsáveis. O banco tem um papel na sociedade. Ao emprestar dinheiro para o projeto A ou B está estimulando um ou outro.

Valor: Qual a conclusão disso?

Barbosa: Concluímos que estes pontos eram relevantes e que iríamos procurar saber o que a empresa fazia. O primeiro caso foi com uma empresa de pesca predatória de camarão, um caso interessante. Não quisemos simplesmente censurar a empresa, mas buscamos uma forma de levá-la a algo que fizesse mais sentido. Buscamos alguém que entendesse de pesca de camarão de maneira a torná-la sustentável, foi um oceanógrafo. Este é o ganha-ganha-ganha. Ao tornar a pesca sustentável, ganha a empresa, que pode produzir por mais tempo, ganham os consumidores, que vão ter camarão mais abundante por mais tempo, e ganha o banco, que tem uma empresa que poderá ser seu cliente por muitos anos.

Valor: O sr. pode relatar algum outro exemplo?

Barbosa: O processo era de provocar reflexões. "Nós queremos trabalhar com empresas que cortam madeira indevidamente no Paraná, sim ou não?" 

É assim que eu perguntava. E as pessoas respondiam "Não queremos." Então, se não queremos, temos que começar a saber com quais empresas estamos trabalhando. 

Estabelecemos um questionário, que era levado a todas as empresas. Elas preenchiam contando sobre suas práticas. 

Era a resposta delas mesmo, sem que houvesse qualquer checagem. 

Descobrimos duas coisas: primeiro, que as empresas gostavam das perguntas, porque percebiam que não haviam sequer pensado sobre muitos daqueles pontos.  Começaram a pensar nisso também.

Valor: E a segunda descoberta?

Barbosa: Descobrimos que as empresas que obtinham melhor pontuação nestes questionários eram aquelas que representavam menor risco de crédito. Que as empresas que cuidam da questão ambiental têm, em geral, uma administração competente também nas demais áreas, boa performance também financeira. Então aquilo que parecia ser um contraponto àquele falso dilema - ou a empresa é rentável ou ela olha para o meio ambiente. Em geral acontece isso: são empresas que evitam riscos de processos, riscos ambientais, risco até de perda de mercado já que a população está cada vez mais atenta a estes pontos.

Valor: No início, quando vocês começaram, a preocupação com sustentabilidade era valorizada?

Barbosa: Era vista como fora do escopo do papel do banco. Os adjetivos pejorativos na época, tipo "banqueiro verde", visavam mostrar justamente que "isso aí está saindo do foco, não é este o papel do banco". Este processo começou em 2001, estamos falando agora dez anos depois. O que a gente vê hoje é que todas as instituições, na sua propaganda e na sua forma de se apresentar ao mercado, fazem alusão ao tema ambiental. Falo de bancos em particular, mas poderia estar falando de empresas em geral.

Valor: O termo "banqueiro verde" era pejorativo?

Barbosa: Acho que, juntos a alguns setores, tinha um tom pejorativo. Não necessariamente com colegas do setor, mas alguns analistas que criticavam que alguém estivesse olhando aquilo que normalmente não se olha. Diziam que o nosso negócio era só conceder empréstimos, não importa para quem. Acho que este é o preço da inovação. Mas havia muita convicção de que isso seria cada vez mais valorizado pelos clientes, pela sociedade e também que representaria uma redução no risco do ponto de vista do banco.

Valor: Consultores próximos a grandes empresas no Brasil costumam dizer, confidencialmente, que o discurso verde de muitas empresas é só marketing. É verdade?

Barbosa: Vejo este ponto de duas formas. Existe muita gente fazendo isso de forma muito correta, muito profunda na questão ambiental e nas outras da sustentabilidade, na ética, na transparência, na relação com os fornecedores, com os acionistas, com o governo, com os parceiros. 

E existem empresas que fazem o que se chama greenwashing. Penso que as que fazem apenas superficialmente correm um grande risco. Neste mundo de transparência, de redes sociais, se você não estiver agindo de acordo com a imagem que está projetando, mais dia ou menos dia, isso virá a tona. Acho perigoso. De repente, é um passo no processo.

Valor: Qual é o outro ponto?

Barbosa: Meu segundo comentário é que seja por convicção, seja por conveniência, acho que todos que valorizam o tema, de alguma maneira contribuem para que caminhemos na direção correta. Aqueles que vêm por convicção e estão fazendo a coisa certa, já deram a sua contribuição para o processo, ganharam muita visibilidade e muita perenidade nos seus negócios. Aqueles que estão vindo por conveniência acabam comprometidos sem que percebam. Acho que a sociedade vai cobrar cada vez mais das empresas. Tem uma frase que uso muito.

Valor: Qual é?

Barbosa: Digo que se a minha geração não foi capaz de deixar um mundo melhor para os nossos filhos, ela certamente deixou filhos melhores para o nosso mundo. Os jovens prestam atenção para aspectos ambientais que a geração anterior ignorava. A questão ambiental deixou de ser como há dez anos, quando era uma curiosidade, talvez um devaneio. Passou a ser uma peça central da estratégia. As empresas hoje não podem pensar em fazer operações, produtos ou serviços se causarem um estrago ao meio ambiente. Porque a sociedade não consumirá seus produtos, não consumirá seus serviços. A grande mudança é o consumidor, especialmente pelos jovens melhores que deixamos para o nosso mundo, mais conscientes, que vão determinar o padrão de produção das empresas.

Valor: Por que a Rio+20 é importante?

Barbosa: Temos que voltar lá atrás. Meio ambiente é uma parte da sustentabilidade, que não é só ambiental, tem a questão social, a questão da diversidade, da relação com fornecedores, e tudo mais. A Rio+20 mostra que este tema é crescente e veio para ficar. A gente pode ter opiniões favoráveis ou contrárias, e eu as respeito. O que não se pode é ignorar que uma parcela significativa da sociedade demanda que algo seja feito a esse respeito. Ignorar não é uma atitude. A Rio+20 coloca o tema no patamar em que tem que estar. Meio ambiente tem uma peculiaridade que vale a pena destacar.

Valor: Qual peculiaridade?

Barbosa: É o que eu chamo da interdependência. Não é um assunto que pode ser resolvido dentro das fronteiras de cada país. Assim como fluxos financeiros e migratórios não se restringem mais a fronteiras, as questões do meio ambiente também não. Não há possibilidade de um país cuidar disso sem que outros o façam. A Rio+20 é um desses casos em que todos têm que estar sentados à mesa, como foi a Rio92, Kyoto e outras importantes reuniões do gênero.

Valor: Porque o sr. acha que esta conferência não decola?

Barbosa: A economia mundial está vivendo um problema bastante grande, que é a mesma crise que se arrasta desde 2008 e agora em 2012 tem um repique. Acho que isso tem tomado o tempo e o foco dos chefes de Estado, da imprensa e de CEOs. Então, a Rio+20 está concorrendo com um tema urgente. E mais uma vez, o urgente toma lugar do importante. Acho que temos que estar com um olho no presente, a crise e tudo mais, e um olho no futuro. Não é que a Rio+20 perdeu relevância. Simplesmente está competindo agora, em termos de atenção, com uma crise mais imediata.

Valor: Economia verde cria mais empregos? É verdade?

Barbosa: Acho que a questão ambiental deixa de ser vista como uma restrição ao andamento dos negócios e passa a ser vista como uma inspiração para inovação e desenvolvimento de negócios. Há uma série de negócios que estão surgindo como resposta a essa demanda da sociedade, de plásticos descartáveis a diesel menos poluente ou embalagens retornáveis. Surgiu toda uma nova indústria que tem como inspiração a redução do impacto ambiental e muitas empresas que orbitam em torno disso.

Valor: Setores expressivos da economia brasileira são conservadores em relação às plataformas sustentáveis. O que o senhor diria a eles?

Barbosa: Temos que buscar o mundo do "e" e não o mundo do "ou". Não podemos ficar no debate simplista de que ou se produz alimentos ou se controla o impacto ambiental. Temos, através da Ciência, de normas claras e de produtividade, buscar o equilíbrio entre estes dois. O Brasil tem mostrado que a compatibilização é possível.

Fonte: Valor Econômico

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