Quando o Abacate gera valor!


Fundada em 2012, a startup Biofase, do México,desenvolveu uma tecnologia inovadora para produzirbioplásticos com o caroço da fruta que abunda no país| por Guillermo MartínezFundada em 2012, a startup Biofase, do México,desenvolveu uma tecnologia inovadora para produzirbioplásticos com o caroço da fruta que abunda no país| por Guillermo Martínez
... a história da empresa Biofase é inspiradora: começou como experimento universitário no México e é responsável pela produção de bioplásticos, ou plásticos biodegradáveis, com o caroço do abacate.
... o exemplo mostra como uma empresa lucrativa pode surgir de questionamentos socioambientais: o fundador da Biofase se incomodava com o tempo que o plástico leva para se decompor e com o impacto disso sobre o meio ambiente.
De sacolas de supermercado a sofisticadas peças de computador, móveis e até mesmo carros, o plástico é hoje um dos materiais mais utilizados pela sociedade.
Segundo dados do Plastics Europe Market Research Group, a produção mundial de plásticos está na casa dos 300 milhões de toneladas e cerca de 30% dos itens fabricados com esse material são usados apenas uma vez.
A indústria e os governos de todo o mundo têm feito esforços para reduzir o consumo de plásticos, porque eles são muito nocivos ao meio ambiente. De acordo com o tipo, eles podem demorar de cem a mil anos para se decompor.
Consciente do impacto direto do plástico sobre a sustentabilidade do planeta, Scott Munguía passou a buscar uma alternativa. Durante o curso de engenharia química no Instituto Tecnológico de Monterrey, México, chegou a suas mãos o artigo de uma publicação científica em que se debatia o uso do milho para a produção de bioplásticos. 
O texto mostrava que 80% desses materiais são fabricados com grãos de milho.
Após a leitura, Munguía ficou se perguntando se era conveniente destinar os plantios de milho para esse fim, uma vez que diversas regiões do mundo enfrentam um grave problema de escassez de alimentos. 
Começou a nascer aí seu empreendimento.
Em 2011, embora ainda permanecesse na universidade, Munguía se dedicou a estudar algumas sementes que poderiam se tornar alternativa ao polímero do milho. 
Sua pesquisa deu frutos, literalmente: o abacate, um dos alimentos mais populares do México e parte de sua cultura.
Além disso, o país é o maior produtor de abacate do mundo e registra um consumo anual per capita de 6,8 quilos, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
Um ano depois de sua descoberta, Munguía fundou a Biofase, empresa que desenvolveu uma tecnologia única e amplamente reconhecida internacionalmente para fabricar bioplásticos com o caroço do abacate, que, como se sabe, é a semente dessa fruta.

Produção abundante 

No México, as empresas agroindustriais que produzem azeite, guacamole e molho salsa descartam mensalmente 30,7 mil toneladas de caroços de abacate. Essa é, precisamente, a matéria-prima que a Biofase compra para abastecer sua linha de produção.
Munguía estima que são desperdiçadas cerca de 300 mil toneladas de caroços de abacate e que a utilização desse volume para fabricação de bioplásticos poderia atender a aproximadamente 30% da demanda mundial desse produto.
De acordo com dados da Associação Europeia de Bioplásticos, o mercado global de bioplásticos possui um valor de US$ 4 bilhões e, diferentemente do que acontece com o setor de plásticos tradicionais, cujo ritmo de crescimento é cada vez menor, nos últimos anos vem experimentando uma ampliação de dois ou três dígitos. 
Prova disso é a própria Biofase: entre 2013 e 2014, a empresa cresceu 700%.

Modelo de negócio 

Resultado de uma incubadora que funcionava na universidade onde Munguía estudou, o modelo de negócio da Biofase se baseava, inicialmente, na venda de resina a fabricantes, para que estes a transformassem no produto final: pratos, garrafas, sacolas e outros artigos.
Dessa maneira, a empresa conseguiu estabelecer alianças com companhias como Biodeck e Packgreen. 
Além disso, começou a exportar resina para a Guatemala, por meio do Logicomer, distribuidor com sede naquele país que também comercializa o produto em toda a América Central.
Esse modelo, no entanto, evoluiu. Em junho de 2014, Munguía e seu irmão, Jason, transformaram o negócio ao ingressar na fabricação de talheres biodegradáveis, à qual passaram a destinar 10% da capacidade produtiva. 
Essa linha de produtos já é comercializada em supermercados de vários estados mexicanos e está presente nos restaurantes do Instituto Tecnológico de Monterrey e na cadeia de hotéis Fiesta Americana.
Atualmente, a empresa conta com três unidades de negócio:
Resinas. Uma família de resinas que podem ser processadas por todos os métodos convencionais de modelagem de plásticos e que substituem as aplicações de polipropileno, poliestireno e polietileno. 
Segundo Munguía, são ideais para empresas transformadoras de plástico que se propõem desenvolver novos negócios voltados para a sustentabilidade ambiental.
Talheres biodegradáveis. Linha de produtos originais da Biofase, elaborados com tecnologia patenteada. 
Por serem biodegradáveis, não causam danos aos ecossistemas.
Produtos e projetos especializados. Unidade concebida como a maneira mais fácil e inovadora de ingressar na indústria de bioplásticos. A Biofase projeta e fabrica peças ou objetos de acordo com as necessidades de seus clientes. 
Também integra todo o modelo produtivo para transformar qualquer ideia em produto biodegradável de alto valor agregado.

Reconhecimento

Em menos de quatro anos de existência, a Biofase já conquistou fama tanto em seu país de origem como internacionalmente. 
“Começamos como uma startup mexicana e hoje somos considerados uma das cinco empresas de bioplásticos mais inovadoras em todo o mundo”, afirma Munguía, orgulhoso.
Destacam-se o prêmio para inovadores com menos de 35 anos da MIT Technology Review, o de inovação tecnológica do Cleantech Challenge, o Santander de inovação empresarial e o de estudante empreendedor, organizado pela Entrepreneur Organization e pela Bolsa Mexicana de Valores.

Os números

  • 20 mil pesos mexicanos foi o investimento que deu origem à Biofase.
  • 17 milhões de pesos mexicanos custou a nova fábrica, com início de operações no final do ano passado.
  • 700% foi o crescimento registrado pela Biofase entre 2013 e 2014.
  • 100 a 1.000 anos é o tempo que o plástico tradicional demora para se decompor.
  • US$ 4 bilhões é o valor do mercado mundial de bioplásticos.

De olho no futuro

Com sua tecnologia já patenteada nos Estados Unidos e no México, a Biofase tem condições atualmente de produzir 50 toneladas de bioplásticos todos os meses. 
A meta da empresa, porém, é mais ambiciosa: acaba de ser colocada em operação sua primeira fábrica própria, em Morelia, capital do estado de Michoacán, com capacidade instalada de 700 quilos por hora.
Alcançando esse patamar, a Biofase será a maior empresa do tipo na América Latina e já planeja atacar o mercado norte-americano com força. Também está em seu radar o mercado europeu.

Linha do tempo

2011
  •  Começam as pesquisas que levarão à tecnologia da Biofase.
  • Obtém-se pela primeira vez o biopolímero com o caroço do abacate. 
2012
  • A Biofase é constituída como empresa mexicana.
  • Registra a patente de sua tecnologia e inicia as operações.
  • Ganha oito prêmios no México e três internacionais (na Espanha, nos Estados Unidos e na Suécia).
2013
  • A tecnologia da Biofase é reconhecida entre as cinco mais importantes do setor de bioplásticos em todo o mundo.
  • A empresa abre ponto de venda em Guadalajara e Morelia, e as vendas chegam a todo o México
2014
  • A Biofase negocia alianças para a distribuição de seus produtos na América Central e nos Estados Unidos.
  • Começa a construção da maior fábrica de bioplásticos do México
2015
  • Entra em operação a maior fábrica de bioplásticos da América Latina.
Você aplica quando...
... monta um negócio para resolver um problema complexo atual.
... busca aproveitar o que sua região tem de excedentes de matéria-prima, a ponto de haver descarte, como o abacate no México.
... tem elevadas aspirações para o futuro de seu negócio, em vez de só focar o curto prazo; a Biofase, por exemplo, pensa grande e longe

Um conselho

Scott Munguía garante que sempre recomenda aos empreendedores que subcontratem seus processos antes de investir em plantas piloto ou adquirir infraestrutura própria. Para ele, com essa estratégia, é possível fazer economias significativas e assumir menos riscos.
“Na Biofase, a primeira coisa que fizemos foi patentear nossa tecnologia. Somente quando tivemos um produto bem definido e estabelecido encaramos o desafio da capitalização. Desse modo, não nos vimos obrigados a ceder uma grande quantidade de ações para desenvolver o produto”, explica.

O desenvolvimento sustentável segundo o economista Jeffrey Sachs

Por Gabriel Wedy


Tive a honra de ser aluno do economista Jeffrey Sachs durante um semestre, na sua interessante cadeira de Desenvolvimento Sustentável, na School of International and Public Affairs, da Columbia University, em 2015. 

Sachs, além de professor da instituição, é diretor do Earth Institute e diretor da UN Sustainable Development Solutions Network. 

É conselheiro especial da Secretaria-Geral da ONU, desde a gestão Kofi-Annan. Para além do profundo conhecimento acadêmico, exerceu naquele ano papel decisivo na construção dos 17 objetivos e das 169 metas aprovados pela ONU, em Nova Iorque, que culminou na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

São estes os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável inseridos na referida agenda:

1) acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

2) acabar com a fome, alcançar segurança alimentar e melhorar a nutrição;

3) assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos;

4) garantir educação inclusiva, equitativa e de qualidade;

5) alcançar a igualdade de gênero e tutelar todas as mulheres e meninas;

6) garantir disponibilidade e manejo sustentável da água;

7) garantir acesso à energia barata, confiável e sustentável;

8) promover o crescimento econômico sustentável;

9) construir infraestrutura resiliente e promover a industrialização inclusiva;

10) reduzir a desigualdade entre os países e dentro deles;

11) tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros e resilientes;

12) assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis;

13) tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima;

14) conservar e promover o uso sustentável dos oceanos;

15) proteger, recuperar e promover o uso sustentável das florestas;

16) promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável;

17) fortalecer os mecanismos de implementação e revitalizar a parcela global.

De acordo com Sachs, no seu célebre e recente livro, The Age of Sustainable Development, o desenvolvimento sustentável é, para além de uma ideia, uma referência nos dias atuais. 

É uma maneira de entender o mundo e um método de resolver os problemas globais. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável devem propiciar “um crescimento econômico socialmente inclusivo e ambientalmente sustentável”[1]

Para se alcançar esses objetivos econômicos, sociais e ambientais, deve estar presente a boa governança[2].

A perspectiva normativa do desenvolvimento sustentável ao certo contribui especificamente para a preservação do meio ambiente. 

Como afirmado por Sachs, “se nós rompermos os sistemas físicos de água e a biodiversidade”, se “destruirmos os oceanos e as grandes florestas tropicais, nós vamos perder imensamente. 

Se nós continuarmos no caminho que certamente está mudando o clima da terra, nós enfrentaremos graves perigos”[3]

Abordagem normativa do desenvolvimento significa que a boa sociedade não é apenas a economicamente próspera (com alta renda per capita), mas também inclusiva, ambientalmente sustentável e bem governada[4]

Boa governança, por sua vez, deve aplicar-se não apenas aos estados, mas às empresas privadas[5].

Governos corruptos que usam a arrecadação em benefício de uma pequena classe de infiltrados ligados à cúpula governamental podem criar expressiva desigualdade[6] e crises ambientais. 

Observa-se claramente isso no Brasil, nos escândalos do petrolão e do mensalão, exemplos nefastos de patrimonialismo e de corrupção moral da classe política orquestrada com setores influentes da sociedade que, em perversa química, colaboraram imensamente para o aumento da desigualdade social, a disparada da dívida pública e a perda da confiança no governo. Outras vezes a má governança, ligada à regulação insuficiente, causa catástrofes ambientais, como no caso de Mariana.

Sachs atribui relevância fundamental aos limites planetários definidos por Rockström[7]

Tratam-se dos limites de exploração que o planeta pode suportar. As nove fronteiras planetárias são assim sistematizadas:

1) relação humana com as mudanças climáticas: essa é a mais importante fronteira planetária e refere-se às ações humanas que causam a aceleração nas emissões dos gases de efeito estufa na atmosfera, causando o aquecimento global;

2) acidificação dos oceanos: os oceanos tornam-se mais ácidos com o aumento do gás carbônico na atmosfera. O fenômeno ameaça várias espécies de vida marinha, incluindo corais, lagostas, moluscos, entre outras;

3) depleação da camada de ozônio: a depleação da camada de ozônio causada por clorofluorcarbonetos (CFCs), encontrados em sistemas de refrigeração e aerossóis, é uma grande ameaça à saúde humana. 

A camada de ozônio protege a Terra dos raios ultravioletas, e o buraco nela causado, em virtude da ação humana, comprovadamente causa câncer de pele e outras doenças. 

A regulação dessas emissões tem diminuído nos últimos anos, mas os CFCs precisam ser eliminados por completo e substituídos por substâncias químicas inteiramente seguras;

4) poluição causada por nitrogênio e fósforo: poluição causada pelo uso de fertilizantes químicos à base de nitrogênio e fósforo utilizados na produção agrícola. 

Cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo hoje se alimentam com a produção gerada com base nesses poluentes. 

O maior problema é que o fósforo e o nitrogênio não ficam apenas nas lavouras; são levados pelo ar para outras localidades e contaminam nascentes e rios, que com pesadas concentrações de ambos os levam a estuários que desembocam no mar e contaminam os oceanos, causando danos irreparáveis à vida marítima;

5) uso excessivo e desperdício de água potável: cerca de 70% da água potável no mundo é usada para agricultura, 20% é utilizada pela indústria e 10% resta para o uso doméstico. 

Fontes de água estão sendo exauridas globalmente. De todos os limites planetários, a escassez de água é a que vai enfrentar a maior crise nas próximas décadas;

6) uso da terra: a humanidade usa uma quantidade imensa de terra para cultivar alimentos, para o pastoreio de rebanhos, para a produção de madeira, de outros produtos da floresta e para a expansão das cidades. 

A humanidade tem convertido a terra, originalmente de florestas, em lavouras e pastagens por milhares de anos. 

Essa prática tem aumentado a emissão de CO2 (o carbono retido nas árvores derrubadas retorna à atmosfera), agravando o aquecimento global. Em decorrência da degradação da terra pelo uso, ecossistemas são rompidos e espécies são extintas;

7) biodiversidade ou diversidade biológica: a evolução da vida na Terra criou entre dez milhões e cem milhões de espécies distintas, das quais a maioria ainda não foi catalogada. 

A biodiversidade não apenas contribui com a vida no planeta, mas também coopera de modo fundamental para as funções do ecossistema, a produtividade das colheitas e a saúde e sobrevivência da humanidade. 

A biodiversidade está ameaçada pela ação humana;

8) carregamento de aerossol: quando são queimados carvão, biomassa, óleo diesel e outras fontes de poluição, pequenas partículas chamadas aerossóis são espalhadas no ar. 

Cria-se uma imensa poluição no ar, que causa danos aos pulmões, vitimando muitas vidas de seres humanos e não humanos todos os anos e causando um significativo impacto sobre o clima;

9) poluição química: o último dos limites planetários, extremamente amplo, é a poluição química. Indústrias petroquímicas, de produção de aço e mineração, usam grande quantidade de terra e água nos seus processos produtivos e também adicionam poluentes no ambiente, muitos dos quais são acumulativos e mortais para seres humanos e outras espécies[8].

Está demonstrado que, quando os seres humanos ultrapassam esses limites, a pressão sobre o meio ambiente torna-se maior do que podem suportar os sistemas naturais, resultando em uma grande mudança nos ecossistemas da Terra[9]. Ultrapassar tais limites coloca em risco todos os seres vivos. 

As pessoas mais afetadas são as que habitam os países mais pobres. Nações pobres possuem menos infraestrutura para enfrentar os impactos ambientais causadores igualmente de imensos prejuízos econômicos. 

No aspecto interno dos países, por sua vez, são os pobres quem mais sofrem com a violação desses nove limites. Fundamental é que o processo de desenvolvimento permaneça observando esses nove limites ou as fronteiras planetárias para que se evitem danos aos seres humanos, ao meio ambiente e à economia[10].

Observam-se, no Brasil, políticas públicas — econômicas, ambientais e sociais — altamente pautadas na sua construção e, em especial, na sua execução, por políticos profissionais despreparados tecnicamente, não raras vezes contaminados pela corrupção, em detrimento de técnicos preparados e honestos, que seriam fundamentais na concretização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. 

É o que se chama do nefasto e tradicional loteamento do governo brasileiro pela vastíssima fauna de partidos cujos membros não se pautam pela fidelidade partidária e, tampouco, pelo comprometimento político com um programa de governo sério, altruísta, ambientalmente responsável e bem elaborado.

A participação plural dos mais diversos setores da sociedade é essencial para o múltiplo e complexo desafio da implementação do desenvolvimento sustentável e para a luta contra mazelas econômicas, sociais e, especialmente, ambientais. 

Conclui-se que a obra The Age of Sustainable Development é uma das mais completas até o momento sobre o tema e demonstra a salutar e nítida influência de Sachs na construção dos 17 objetivos e das 169 metas do desenvolvimento sustentável adotados pela ONU no ano de 2015 na Agenda 2030. 

Todavia, a sugerida implementação paulatina de tais objetivos por Sachs pode não responder às necessidades imediatas das nações para os graves problemas que afetam a humanidade no aspecto humano, ambiental, econômico e de governança, em especial nos países em desenvolvimento, como o Brasil. 

Ou melhor, a implementação desses objetivos esbarra na falta de um mecanismo coercitivo de distribuição de recursos financeiros, das nações ricas para as pobres, para o financiamento do desenvolvimento sustentável. 

A própria estrutura concentradora de renda dentro das nações em desenvolvimento não permite tal distribuição, que poderia se dar como fruto da tributação das rendas e das heranças milionárias acumuladas pelas atuais gerações e, igualmente, pela tributação do carbono. 

Recursos acumulados, investidos e reinvestidos especulativamente no mercado de ações e na indústria dos combustíveis fósseis precisam ser investidos em políticas públicas verdes e na geração de energia e de empregos sustentáveis.

Outro problema está nas estruturas marcadas pela governança caótica, marcada pela corrupção e pela completa ineficiência operacional que afetam grande parcela de governos dos países em desenvolvimento, os quais, mesmo recebendo assistência técnica, recursos provenientes de doações, investimentos internacionais ou da própria arrecadação interna, não têm a capacidade de alocá-los para políticas públicas promotoras do desenvolvimento sustentável.

O Direito Internacional não oferece mecanismos jurídicos efetivos para a implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, e tampouco existe uma corte internacional com poder de coerção para implementá-los. 

É notória, outrossim, a falta de uma corte ambiental internacional para apreciar demandas relativas ao pilar ambiental da sustentabilidade.

Seja como for, ainda assim, a solução formulada por Sachs no sentido da construção, divulgação e implementação dos objetivos e das metas do desenvolvimento sustentável é de relevância singular, revolucionária, ao menos como norte, para a atuação de governos e da iniciativa privada em todo o mundo visando melhorias nos padrões de tutela ambiental, de inclusão social, de boa governança e de um desenvolvimento econômico movido por energias renováveis.


[1] SACHS, Jeffrey. The age of sustainable development. New York: Columbia University Press, 2015. p. 3.
[2] Idem.p. 3.
[3] Ibidem. p. 12.
[4] Ibidem. p. 12.
[5] Ibidem. p. 42.
[6] Ibidem. p. 59.
[7] ROCKSTRÖM, Johan et al. Sustainable Development and Planetary Boundaries. Background Paper for the High – Level Panel of Eminent Persons on the Post – 2015 Development Agenda. New York: Sustainable Development Solutions Network, 2013.
[8] Obra citada. p. 185-193.
[9] Obra citada. p. 193.
[10] Ver: FOLADORI, Guillermo. Los limites del desarrollo sustentable. Montevideo: Ediciones de la banda oriental - Revista Trabajo e Capital, 1999.

Música, meio ambiente e a força feminina: com "Moana", a Disney acerta de novo

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A “pré-estreia” brasileira, digamos assim, aconteceu na Comic Con Experience em São Paulo, com direito à presença de Clemens e Musker em pessoa: depois da exibição do filme, os dois, que pela primeira vez dirigem um longa em animação digital 3D, apresentaram um painel de mais de uma hora sobre o processo de produção – com detalhes nada menos que fascinantes para quem é fã de Disney ou sonha em trabalhar na área. 

Os diretores contaram que Moana começou a ganhar forma ainda em 2011, depois de uma viagem de três semanas às ilhas do Pacífico Sul, passando pelas Ilhas Fiji, Samoa, Taiti e Nova Zelândia – a ideia, segundo eles, era criar uma história que tivesse sim referências mais tradicionais à cultura do lugar (o que algumas pessoas têm criticado como “perpetuação de estereótipos”), mas que fizesse com que um morador da região que assistisse ao filme se sentisse representado, e não desrespeitado. 

“Falamos com a população, com pescadores, com navegantes, e aprendemos em primeira mão aspectos de seus costumes, seu passado como navegantes, sua estreita relação com o oceano, sua conexão com os ancestrais, a importância da família”, enumerou Musker, citando um exemplo: 

“As pessoas da ilha se preocupam muito com o meio ambiente, são mais sensíveis a estes temas porque enfrentam isso em seu dia a dia, por seu modo de vida. Para eles é crucial o respeito à natureza e em particular ao oceano.”

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A trama é relativamente simples: Moana, filha do chefe da ilha de Moto Nui, recebe, ainda criança, um chamado do mar – ela é escolhida pelo oceano para levar à ilha de Te Fiti, uma divindade feminina, uma pedra que representa o coração da ilha (e da deusa, simultaneamente), e assim restaurar a vida e a natureza na região, que vinha aos poucos sendo dominada por uma “escuridão” que matava os peixes e ressecava as plantas (referência clara à poluição).

Assim, aos 16 anos, Moana parte em busca de Maui, o semi-deus que roubou o coração de Te Fiti, para salvar seu povo e sua ilha.

Sim, a fantasia aqui vai mais ainda mais longe que na maioria das produções da Disney: tem deusa-mãe que vira ilha, tem semi-deus, tem caranguejo gigante falante, tem demônio de fogo, tem anzol mágico, tem até coco vivo e do mal (é sério) – mas tudo isso faz muito sentido quando se pensa que quase nada foi criado do zero na cabeça dos roteiristas: tudo tem fundamento na mitologia dos povos da região.

Além de ambientalista, Moana tem sido definido pela crítica internacional como “feminista” – a começar pela própria protagonista, descrita pelos diretores como “uma heroína em um filme de aventura”: 

“Moana é uma jovem que realiza uma viagem para salvar seu povo, e que para isso tem amos dele faz parte de sua lenda: a magia de suas tatuagens, sua capacidade para adotar formas de diferentes animais.

É um personagem ideal e muito rico para uma animação.”que passar por cima de seus medos e superar obstáculos. Nunca pensamos em incluir uma história de amor, porque não achamos necessário.” 

Moana – que vai herdar a liderança de seu povo após a morte de seu pai – tem corpo e cabelos mais realistas para uma menina de 16 anos, e, em certo ponto do filme, se nega a ser chamada de “princesa”. 

Te Fiti, que move o início da trama, é uma deusa mulher; e quem revela a Moana a história de seus antepassados e seu provável destino é outra mulher, sua sábia avó. 

Mas, embora de fato dê relevância aos personagens femininos e representatividade às mulheres, o que tem inegável importância, Moanao faz aparentemente sem levantar bandeiras, de forma tão natural que parece tentar dar exemplo a outras produções – como se dissesse que o público quer mesmo boas histórias e bons personagens, seja lá qual for o gênero desses personagens. 

E Clemens e Musker já haviam demonstrado essa vocação com Tiana, a independente e determinada protagonista de A Princesa e o Sapo.
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Outro aspecto impossível de ignorar: a música. Clemens e Musker contaram que se impressionaram com a musicalidade do povo retratado no filme: 

“Há música por todo lado lá, como aqui no Brasil”, contou Clemens. “Então percebemos que a música teria uma parte muito importante na história.” 

As principais canções do filme foram escritas por Lin-Manuel Miranda, responsável pelo fenômeno da Broadway Hamilton; e músicos locais se juntaram aos artistas contratados pela Disney, gravando inclusive faixas cantadas na língua taitiana. 

E, como uma boa fã de Disney (e das músicas dos filmes do estúdio), eu digo: o resultado é de arrepiar. As músicas de Moana, com seus corais e seus tambores, ganharam um ar épico, parecido com o da trilha sonora de O Rei Leão. Tulou Tagaloa, a música da introdução, é belíssima (mesmo para quem não entende palavra do que está sendo dito); enquanto a delicada An Innocent Warrior embala um dos momentos mais bonitos do filme. 

Where You Are é divertida, ficando um pouco atrás de You’re Welcome, a música mais empolgante (e irresistivelmente grudenta) do filme, cantada por Dwayne Johnson, o The Rock. 

We Know The Way é dessas de fazer lágrimas virem aos olhos (okay, confesso que chorei litros) – e How Far I’ll Go, interpretada pela estreante Auli’i Cravalho, a música tema, tem tudo para virar a nova Let It Go nas vozes e na imaginação das crianças (não se preocupe: ela é bem mais legal que Let It Go).






Se você ama Disney, vá ver Moana.

Se você ama ouvir trilhas sonoras das músicas da Disney, vá ver Moana. 

Se você quer um filme com boas e fortes personagens femininas, vá ver Moana.

Se você gosta de filmes com uma pegada mais consciente e mais ambientalista, vá ver Moana. 

Se você só quer mesmo um filme legal, divertido e emocionante ao mesmo tempo (prepare o lencinho se você é chorona como eu), vá ver Moana. 

Ah: e preste atenção nos easter eggs – os diretores disseram, durante a CCXP, que Olaf, de Frozen, e Max, o cachorro do príncipe Eric de A Pequena Sereia, aparecem no filme, além de outros dois personagens da Disney, que eles não revelaram quais são. 

Caso encontre, faça o favor de me contar: como só fui avisada depois de ver o filme, eu não tive a chance de procurar. Mas também, com os olhos cheios de lágrimas, ficaria mesmo meio difícil.


Aprenda a fazer enfeites sustentáveis para este Natal


Que tal fazer um Natal mais sustentável em 2016? 

Reaproveitar materiais é uma das alternativas para gastar menos e preservar o ambiente durante este mês em que enfeitar a casa faz parte da rotina de muitas famílias.

Tampas de garrafa, rolos de papel higiênico, resto de madeira e até livros viram protagonistas de uma decoração natalina linda.

Confira na galeria a lista feita pelo Pinterest com exclusividade para o Virgula:

















Se quiser ver direto no Pinterest, seguem os links abaixo:


Pote antigo vira enfeite lindo – 


Rolha usada de vinho também entra no clima de Natal – 


Tampas de garrafa reaproveitadas – 


Rolo de papel higiênico transformado em desenho –


Porta antiga vira suporte para árvore de luzes – 


Caixas de papelão transformadas em árvores de Natal sustentável – 


Resto de madeira também vira árvore – 


Livros empilhados estrategicamente decora a sala – 


Prendedor de roupas para o Natal – 


Fotos de família e amigos também se transformam em árvore e decoração



Fazenda de Mato Grosso do Sul é a campeã da sustentabilidade!

A Modelo II adotou integração lavoura-pecuária-floresta e foi a vencedora do prêmio Fazenda Sustentável 2016, entregue pela revista Globo Rural

POR REDAÇÃO GLOBO RURAL

fazenda-sustentavel-vencedores-2016 (Foto: Silvia Gosztonyi/Ed. Globo)Vencedores do terceiro prêmio Fazenda Sustentável foram conhecidos nesta terça-feira (6/12), em São Paulo (Foto: Silvia Gosztonyi/Ed. Globo)



A Fazenda Modelo II, localizada em Ribas do Rio Pardo (MS), foi anunciada nesta terça-feira (6/12) a vencedora da terceira edição do Prêmio Fazenda Sustentável, iniciativa da revista Globo Rural para estimular a adoção das boas práticas na atividade agropecuária. 

A cerimônia de premiação foi realizada no Espaço 400, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo (SP).

"Queria agradecer a equipe, uma equipe muito comprometida que trabalhou duro para estarmos aqui. Foi uma honra conseguir esse primeiro lugar", disse o gerente administrativo da propriedade, Alvaro Grohmann Neto.

A propriedade vencedora do Fazenda Sustentável neste ano é considerada pioneira na adoção do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta. 

Mais de 7,6 mil hectares de pastagens degradadas foram convertidos em plantações de soja, milho, feijão e eucalipto junto com um confinamento para cerca de 20 mil cabeças de gado. 

São 105 funcionários, com atenção para a mão-de-obra feminina, iniciativas de qualidade de vida e educação para crianças.


A segunda colocação no prêmio foi para a Fazenda Porteira Velha, de Pinhão (PR). O dono da propriedade, Silvino Caus, disse que a premiação aumenta a responsabilidade em relação à sustentabilidade do seu negócio. 

"Tenho peso maior nas minhas costas de representar minha região. Vou ser visto de outra maneira e meu desafio é tornar minha fazenda cada vez mais sustentável."
A Porteira Velha está na encosta de um morro, a 1.050 metros de altitude. Começou nos anos 1970 com pecuária de corte, mas, ao longo do tempo, foi diversificando a produção. 

Hoje tem também soja, milho, frutas e erva-mate. Tudo é feito em apenas 40% da área total. 

Os outros 60% estão preservados. O trabalho é coordenado por sete funcionários. 

Eles gerenciam 50 hectares cada um e têm direito à assistência técnica, médica, odontológica e ambiental.
Na terceira colocação ficou a Fazenda Primavera, de Angelândia (MG), ligada aos Montesanto Tavares, antigos donos do Café 3Corações. 

Também fundadora da Suco Mais, a família hoje comanda um império formado por lavouras de café para e florestas plantadas com mogno africano.  

"A gente chegou onde chegou porque nossas atitudes que levaram a esse prêmio são frutos dos valores que temos nas nossas empresas. A sustentabilidade é um trabalho diário nas nossas fazendas", disse Leonardo Tavares.
"Todas essas fazendas cumprem o Código Florestal. Nessas propriedades, a sustentabilidade é encarada como investimento", resumiu o diretor de Redação da revista Globo Rural, Bruno Blecher. 

Ele lembrou, em seu pronunciamento, que as propriedades rurais que adotam as boas práticas na produção, além de serem mais produtivas, têm uma relação melhor com a comunidade onde estão inseridas e valorizam seus produtos.
O concurso
O Prêmio Fazenda Sustentável é realizado pela Globo Rural em parceria com o Rabobank, a World Wildlife Foundation (WWF) e a Fundação Espaço Eco (FEE). Nesta terceira edição, 65 fazendas de várias partes do Brasil foram inscritas. 

Dessas, 37 passaram para a segunda fase de avaliação.  Na fase seguinte, 17 propriedades entre as avaliadas na etapa anterior passaram  por uma nova etapa de análises para a seleção das dez finalistas. 

Estas concorrentes receberam visitas técnicas e os relatórios de avaliação serviram de base para a escolha das vencedoras, feita por uma comissão julgadora.
"O prêmio vai ao encontro do que o banco pensa do agronegócio, um agronegócio produtivo e sustentável", disse Thais Fontes, responsável pelo departamento de sustentabilidade do Rabobank Brasil, uma das instituições responsáveis pela metodologia de avaliação. 

"A gente olha para o pais como grande produtor de alimentos e estamos aí para ajudar o produtor a implantar o Código Florestal", acrescentou o especialista em finanças para sustentabilidade da WWF, Fábio Luiz Guido.
Projetos de arranjos produtivos integrados foram as principais marcas desta terceira edição do concurso. 

A maior parte das propriedades inscritas apresentava sistemas como cafeicultura com floresta, caso da terceira colocada deste ano, ou integração lavoura-pecuária-floresta, exemplo da fazenda vencedora.
"Esse prêmio reforça a maturidade do setor. Hoje podemos dizer que cada vez mais produtores encaram o desafio da sustentabilidade como oportunidade. 

Nossa expectativa é de que os produtores continuem a inserir essas praticas em suas atividades", disse o diretor-presidente da Fundação Espaço Eco, Rodolfo Viana.
Os perfis detalhados das fazendas premiadas está na edição de dezembro da revista Globo Rural, que chega às bancas a partir desta quarta-feira (7/12).