Brasil tem autoridade para mostrar ao mundo a criação das APPS mundiais nas margens do rios, diz presidente da CNA

Mostrar ao mundo a importância das matas ciliares para garantir a qualidade da água. Esse é o objetivo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que defende, em parceria com a Embrapa e da Agência Nacional de Águas (ANA), a proposta de criação da Área de Preservação Permanente (APPs) mundial nas margens dos rios
 
ASSESSORIA DE IMPRENSA CN



“Não queremos ditar regras a outros países, mas temos autoridade para mostrar ao mundo a importância das matas ciliares e propor um debate conceitual”, afirmou a presidente da CNA, senadora Kátia Abreu.

“Se esse conceito existe no Brasil, e nós acreditamos nele, tem que ser bom para todos os rios do mundo”, afirmou. A senadora participou, nesta terça-feira (19), no Espaço AgroBrasil, liderado pela CNA, na Rio+20, do lançamento da proposta de criação da APP mundial. 

Ao falar da iniciativa, apresentada pela primeira vez em março deste ano durante o Fórum Mundial da Água, na França, lembrou que essa é a contribuição que o Brasil, que possui 12% da água doce do mundo e preserva 61% de seus biomas, tem a oferecer nesse debate. “O mundo inteiro precisa saber que a preservação é importante”, afirmou.

De acordo com a presidente da CNA, as margens de muitos rios que cortam o País estão conservadas na forma de APPs. “Mas muitos rios estão poluídos nas cidades”, afirmou. 

A senadora Kátia Abreu lembrou que a maioria dos produtores rurais sabe da importância da preservação de suas propriedades, conscientização que será ampliada com o Projeto Biomas, desenvolvido pela CNA em parceria com a Embrapa. O objetivo desse projeto é desenvolver pesquisas e tecnologias para garantir a proteção e o uso sustentável de cada um dos biomas brasileiros, a partir do uso de espécies de árvores nativas ou exóticas nas propriedades rurais. 

“O produtor vai compreender que preservar e adotar boas práticas ambientais valoriza o patrimônio dele e gera mais renda, porque uma fazenda sustentável é fundamental para sobrevivência econômica e financeira”, acrescentou.

A senadora Kátia Abreu lembrou, ainda, que o País transformou cobertura vegetal nativa em “alimentos, comida e ativos econômicos e sociais da maior importância para o Brasil” e que as atividades agropecuárias ocupam 27,7% do território nacional, enquanto 61% estão preservados na forma de florestas nativas. 

Citou a taxa de desmatamento que caiu de 27 mil quilômetros quadrados para 6.200 quilômetros quadrados. “Nós vamos chegar muito antes da meta de 5.800 quilômetros quadrados, estabelecida para 2020, assumida em Copenhague, na Dinamarca”, afirmou. 

Apesar desses dados, lembrou que “erros foram cometidos, mas que todos estão dispostos a corrigir esses erros. O que nós queremos, de verdade, é um ambientalismo por ciência e não por paixão, por ativismo”, afirmou.

Na cerimônia de lançamento da proposta, o presidente da ANA, Vicente Andreu, afirmou que um dos principais problemas no País é a falta de saneamento básico, situação que compromete a qualidade da água. “Muitas vezes as pessoas cobram melhorias na qualidade da água e não sabem que isso deve ser cobrado junto aos seus prefeitos e governadores”, afirmou. 

Outra falha apontada por Andreu foi a falta de um plano de gestão de recursos hídricos em alguns Estados. Nesse contexto, defendeu o fortalecimento do modelo de gestão.

“Há uma carência por parte dos Estados de um sistema de gestão efetiva. Por isso, precisamos trabalhar no sentido de fortalecer a gestão regional para que os Estados estejam à altura de seus desafios”, enfatizou. 

Destacou, ainda, que a proposta de criação de um conceito universal deve considerar, além da segurança hídrica, a segurança alimentar e ambiental, e que estes pontos sejam levados em conta nos debates da Rio+20 e em outros fóruns internacionais de discussão sobre o uso da água.

Para o presidente da Embrapa, Pedro Arraes, a agricultura hoje pode ser parte da solução para o caminho da sustentabilidade. Ele também avaliou que os outros países podem seguir o modelo brasileiro de gestão e proteção das APPs, desde que cada um faça suas adaptações. 

“Existem várias formas de implantação de técnicas e políticas voltadas para a proteção ambiental e dos recursos hídricos e cada um deve achar o modelo mais adequado”, frisou. 

Já o vice-presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, defendeu a criação de um fórum internacional para discutir a criação da APP global. “Podemos avançar muito nessa questão, optando pelas melhores tecnologias”, avaliou.

Depois dos pronunciamentos, a proposta foi debatida com cientistas estrangeiros. Um dos participantes, o professor Mark Mulligan, da King’s College London, em Londres (Inglaterra), destacou a viabilidade de estender a proposta brasileira para outros países, para proteger e assegurar a qualidade da água utilizada para a atividade rural. 

“As APPs podem contribuir neste processo, além de outras paisagens importantes na questão ambiental, que podemos utilizar nas propriedades rurais”, salientou o pesquisador.

A pesquisadora Jéssica Casaza, do escritório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) para América Latina e Caribe, falou sobre o avanço das discussões sobre a proteção da vegetação próxima aos cursos d’água no âmbito da FAO. 

“Demos passos importantes e podemos trabalhar em parceria para colaborarmos ainda mais com a proteção dos recursos hídricos e a produção sustentável”, comentou.

Para o pesquisador Donald Sawyer, do Centro de Estudo Latino Americano da Universidade de Harvard, a proposta brasileira pode ser adaptada para outros países, desde que “sejam feitos ajustes”. 

Ele ressaltou, ainda, que a qualidade da água dependerá do nível de proteção dos biomas brasileiros para assegurar o uso da água para consumo humano, a agricultura e geração de energia elétrica.

Energia a partir dos Oceanos



Usina de ondas pioneira da América Latina


A usina de ondas do Porto do Pecém, que transforma os movimentos do oceano em energia, será lançada, oficialmente, durante o evento Rio +20, a ser realizado entre os dias 13 e 22 desse mês. 

Pioneiro na América Latina, o projeto, inicialmente, irá abastecer o próprio Porto. 

De autoria do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenha...Ver mais



Confiram o CBCS Notícias #4 com o último número da série especial “Esquentando para Rio+20”,

Confiram o CBCS Notícias #4 com o último número da série especial “Esquentando para Rio+20”, que traz depoimento da Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, do economista Ricardo Abramovay, do diretor do escritório regional da ONU-Habitat para América Latina e o Caribe Alain Grimard e da diretora da divisão de tecnologia, indústria e economia da UNEP Sylvie Lemmet


A versão PDF deste e dos boletins anteriores está no site do CBCS. 
Boa leitura.

Confiram o CBCS Notícias #4 com o último número da série especial “Esquentando para Rio+20”,

Confiram o CBCS Notícias #4 com o último número da série especial “Esquentando para Rio+20”, que traz depoimento da Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, do economista Ricardo Abramovay, do diretor do escritório regional da ONU-Habitat para América Latina e o Caribe Alain Grimard e da diretora da divisão de tecnologia, indústria e economia da UNEP Sylvie Lemmet. A versão PDF deste e dos boletins anteriores está no site do CBCS. Boa leitura.

Plataforma global para pesquisa em Sustentabilidade é lançada no Rio + 20



Por Elton Alisson, da Agência FAPESP – Uma plataforma global para pesquisa em sustentabilidade foi lançada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20), na semana passada, por uma aliança formada pelos principais agentes internacionais da ciência, agências de financiamento à pesquisa e organismos vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU).

Denominada “Future Earth” (“Terra do futuro”), trata-se de uma iniciativa com duração de dez anos para apoiar pesquisas que resultem no conhecimento necessário para responder eficientemente aos impactos das mudanças ambientais globais. 

O lançamento foi feito no “Forum on Science, Technology and Innovation for Sustainable Development”, realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

A ideia é fornecer as bases que permitam sustentar a transformação em busca da sustentabilidade do planeta para as próximas décadas. 

Milhares de cientistas em todo o mundo serão mobilizados pela iniciativa, ao mesmo tempo em que serão estabelecidos acordos com governos, órgãos e instituições responsáveis pela adoção de políticas públicas de modo a oferecer opções e soluções de sustentabilidade pós-RIO+20.

Entre as metas da nova plataforma global estão a produção de pesquisas orientadas para soluções que integrem desafios em mudanças ambientais com o desenvolvimento sustentável, de modo a satisfazer as necessidades humanas por alimentos, água, energia e saúde.

Colaborações inter e transdisciplinares entre pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento científico e tecnológico serão efetuadas de modo a encontrar as melhores soluções para as principais questões em torno do futuro do planeta.

Outra proposta da plataforma é aumentar a capacidade de pesquisa em ciência, tecnologia e inovação, especialmente em países em desenvolvimento, bem como engajar a nova geração de cientistas.

A plataforma Future Earth é uma iniciativa conjunta do International Council for Science (ICSU), do International Social Science Council (ISSC), do Belmont Forum, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Universidade das Nações Unidas (UNU). 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) participa como observadora. Agências de fomento à pesquisa em todo o mundo integrarão os esforços da iniciativa.

“Precisamos de uma nova abordagem para enfrentar os desafios críticos das mudanças ambientais globais e do desenvolvimento sustentável que seja mais interdisciplinar, mais internacional, mais colaborativa e que responda melhor aos usuários das pesquisas”, disse Diana Liverman, codiretora do Instituto para o Meio Ambiente da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, e copresidente do grupo responsável pelo desenho da Future Earth na apresentação da iniciativa.

A iniciativa, que vem sendo planejada há três anos, deverá ajudar a responder questões fundamentais, entre as quais como e por que o ambiente global está mudando, além de vislumbrar desafios futuros e suas implicações para o bem-estar e para a sobrevivência do homem e das outras espécies.

Uma série de consultas para levantar os principais desafios em pesquisa nesse sentido será conduzida no segundo semestre de 2012 por meio de questionários on-line e workshops que serão realizados na Ásia, África, América Latina e Oriente Médio.

Alguns desses encontros, como um workshop sobre segurança alimentar e uso de energia, deverá ser realizado no segundo semestre deste ano.

Como membro do Belmont Forum – consórcio que reúne agências de financiamento à pesquisa de 13 países, além das da Comunidade Europeia – a FAPESP participará da iniciativa auxiliando na escolha dos temas das pesquisas, na elaboração das chamadas e na análise, seleção e cofinanciamento dos projetos. 

Cada projeto deverá ter a participação de pesquisadores de pelo menos três países.

“Um dos pontos fortes desta aliança é que ela congrega cientistas, usuários dos dados das pesquisas e as agências de fomento, que irão decidir pelo financiamento dos projetos. 

E algumas dessas agências de fomento estão reunidas no Belmont Forum, sendo que quatro delas são de países emergentes”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP e membro do Belmont Forum.

Brito Cruz destacou durante o lançamento da Future Earth no Rio de Janeiro que um dos objetivos da iniciativa é criar oportunidades para jovens pesquisadores se envolverem no desenvolvimento de pesquisas, e que muitas das agências de fomento à pesquisa participantes do projeto, como a FAPESP, já possuem programas voltados ao apoio de projetos realizados por jovens pesquisadores, que podem dar subsídios à iniciativa.

Yuan Tseh Lee, presidente do ICSU e ganhador do prêmio Nobel de Química de 1986, também presente na cerimômia, avaliou que, por meio de parcerias sólidas e abrangentes, a Future Earth irá conectar a pesquisa científica e o desenvolvimento de políticas e de ações, ampliando a interface entre ciência e políticas que apoiem a sustentabilidade.

“Estamos muito felizes em lançar essa iniciativa na RIO+20 que, afinal, é sobre caminhos para o futuro sustentável e a Future Earth representa um passo concreto nessa direção”, disse.

Alguns dos próximos passos que deverão ser dados para a concretização da iniciativa serão a criação de um conselho de governança e de um comitê científico, que deverá ser estabelecido em 2013.

Mais informações sobre a Future Earth: www.icsu.org/future-earth

INDÚSTRIA BRASILEIRA REDUZIU BASTANTE IMPACTO DA SUA ATIVIDADE NO MEIO AMBIENTE


Documento da CNI informa na Rio+20 que indústria brasileira reduziu bastante impacto da sua atividade no meio ambiente
A indústria brasileira reduziu consideravelmente o impacto de sua atividade no meio ambiente nos últimos 20 anos, desde a Eco-92, diminuindo as emissões de gases de efeito estufa, reciclando, usando insumos renováveis, reaproveitando a água. A informação, com dados, está em documento divulgado nesta quinta-feira, 14.06, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), na Conferência Rio+20.

Segundo o documento, entregue pelo presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, à ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, no seminário Encontro da Indústria para a Sustentabilidade, que reúne, até o início da noite, cerca de 800 empresários no Hotel Sofitel, em Copacabana, 97, 6% das embalagens de alumínio são recicladas no país, um dos mais altos índices do mundo.

Revela o documento (resumido abaixo) que a celulose e o papel produzidos no Brasil provêm integralmente de florestas plantadas, enquanto a indústria química reduziu em 47% suas emissões de CO² em dez anos. A geladeira fabricada atualmente no país consome 60% menos energia do que há uma década e cada automóvel usa 30% menos água no processo de produção. 

A sardinha enlatada brasileira é certificada internacionalmente em critérios da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) para preservação da biodiversidade marinha.

Corte de impostos - Andrade destacou, na abertura do seminário, que o documento “é resultado de um esforço inédito da indústria nacional de reportar à sociedade seu desempenho sustentável”. Anunciou o compromisso da CNI de divulgar, a cada quatro anos, os avanços da indústria nacional em sustentabilidade.

O presidente da CNI propôs ao governo desonerações tributárias para a produção que preserve o meio ambiente. ‘É importante que o sistema tributário considere a dimensão ambiental da atuação das empresas, com um corte de impostos mais agressivo para quem utilizar os recursos naturais de maneira eficiente e adotar modelos sustentáveis de produção”, sugeriu.

Na sua visão, a transição brasileira para um modelo de produção mais sustentável “pressupõe custos e riscos, que devem ser minimizados por políticas públicas amplas de apoio às empresas”.

Robson Braga de Andrade afirmou ainda que a preocupação da indústria brasileira com a preservação ambiental, comprovada no documento divulgado no Encontro da Indústria para Sustentabilidade, não é prática de marketing. 

“As indústrias brasileiras não tratam da sustentabilidade como uma manifestação de boas intenções. Cada vez mais, incorporam seus princípios nos planos de negócios. Hoje, sustentabilidade e a necessidade de aumento da competitividade andam de mãos dadas”, assinalou.

A ministra do Meio Ambiente destacou como fundamental a atuação da indústria na agenda da sustentabilidade. “Estamos saindo do idealismo para o pragmatismo. Esse é o desafio político. Estamos numa nova fase de diálogo entre indústria, governo e sociedade. Para a perfeita inclusão da indústria na agenda da sustentabilidade, teremos de ser criativos, não só com as grandes corporações, como também com as pequenas e médias empresas”, frisou Izabella Teixeira.

O ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, que também participou da abertura do seminário, ressaltou a participação da CNI na elaboração do documento do governo brasileiro submetido à ONU para a Rio+20. “Sem a participação da indústria, nenhum país é capaz de implementar uma nova agenda na Rio+20”, sublinhou.

Avanços por setor – O documento elaborado pela CNI alinha os avanços na conservação do meio ambiente de 16 setores da indústria, responsáveis por 90% do PIB industrial. Eis o resumo por setor e por associação setorial e entidade, com casos de empresas:

.Sucroenergético (Fórum Nacional Sucroenergético) - No Brasil, as usinas de açúcar e etanol são autossuficientes em energia, uma vez que utilizam o próprio bagaço da cana-de-açúcar para gerar energia para o seu funcionamento. Nos canaviais, os fertilizantes industrializados estão sendo substituídos por adubos minerais, o que contribui para a redução das emissões de gases do efeito estufa.

Empresas do setor têm adotado práticas de sustentabilidade. O Grupo Cosan, por exemplo, trabalha com circuitos fechados em pelo menos 19 de suas usinas, em que 90% das águas são condensados nos processos industriais e permanecem em recirculação. A Bunge e o Grupo Pedra têm programas de preservação que incluem a recomposição florestal.

O setor, por meio do Fórum Nacional Sucroenergético, está desenvolvendo um sistema de certificação voluntário que estabelecerá padrões para práticas responsáveis em todo o processo produtivo para açúcar e etanol.

.Alumínio (Associação Brasileira da Indústria de Alumínio – Abal) -  O Brasil possui um dos mais altos índices de reciclagem de alumínio do mundo, sendo campeão no aproveitamento de latas para bebidas. Hoje, 97,6% das embalagens de alumínio produzidas e distribuídas no país são recicladas. 

Além disso, o setor mantém uma matriz energética essencialmente hídrica, o que faz com que as emissões dessa indústria no Brasil fiquem bem abaixo da média mundial. São 4,2 toneladas de CO² equivalente por tonelada de alumínio, ante a média mundial de 9,7 toneladas.

Uma atuação de destaque na economia de água e aproveitamento de resíduos é a Inbra Metais, empresa de Itaquaquecetuba (SP) de reciclagem de alumínio. Na empresa, toda a água utilizada na produção é captada da chuva. Ela possui um reservatório com capacidade para 700.000 litros. 

A empresa investiu também em um sistema de exaustão que capta todas as partículas e resíduos do processo produtivo, reduzindo a contaminação.
A Inbra Metais é a primeira empresa de reciclagem da indústria de alumínio a zerar suas emissões de carbono. 

A unidade é totalmente movimentada a gás – o que resulta na economia de energia – e compensa suas emissões com a compra de crédito de carbono.

.Celulose e papel (Associação Brasileira de Celulose e Papel – Bracelpa) - Um dos principais atributos de sustentabilidade do setor é de que 100% da matéria-prima (madeira) para a produção de celulose e papel vem de florestas plantadas. São 2,2 milhões de hectares de plantações de pinus e eucalipto. Essas florestas são manejadas seguindo boas práticas e, em sua maioria, certificadas por instituições internacionais.

O setor utiliza uma técnica de plantação em mosaico, que mescla florestas plantadas com a floresta nativa. Com essa atuação, o segmento mantém hoje 2,9 milhões de hectares de áreas nativas preservadas.

Desde 1980, o setor vem investindo em tecnologia para aumentar a produtividade de madeira por hectare de floresta plantada. A produtividade de eucalipto aumentou 83%, e a de pinus dobrou, atingindo 100% de lá para cá.

O segmento também tem investido em combustíveis alternativos, tornando sua matriz energética mais limpa. Em 2010, o licor preto (um subproduto da madeira) respondeu por 66,3% da matriz energética e a biomassa por 18,5%. O óleo combustível, que, na década de 1970 estava próximo a 45% da matriz energética, caiu para 5,5% em 2010.

.Química (Associação Brasileira da Indústria Química – Abiquim) - Um balanço feito pelo setor dos resultados de ações de sustentabilidade entre 2001 e 2010 mostra evoluções importantes, como a redução de 47% das emissões de gases de efeito estufa. Isso ocorreu, principalmente, devido ao investimento na diversificação de fontes de energia (aumento do uso de gás natural) e aprimoramento do processo produtivo. No período, houve uma queda de 65% no consumo de óleo combustível, que foi substituído pelo gás natural e outras fontes renováveis.

Outro destaque do balanço foi a racionalização do consumo de água, que recuou 34% por tonelada de produto químico entre 2001 e 2011. O setor registrou avanços igualmente na reciclagem de efluentes – o índice de reciclagem passou de menos de 5% em 2001 para média próxima a 30% em 2010.

.Elétrica e eletrônica (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica – Abinee) -Nos últimos 20 anos, o setor investiu na produção de tecnologias inovadoras que aumentaram a eficiência energética e a produtividade. Em 2010, o selo Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica) foi outorgado a 3.778 modelos de equipamentos, distribuídos em 31 categorias e envolvendo 206 fabricantes. Estima-se que as ações do Procel, criado em 2003, resultaram na economia de 6.131 milhões de quilowatts, dos quais um terço é decorrente de geladeiras e freezers.

A geladeira produzida hoje no país consome 60% menos energia do que a fabricada 10 anos atrás. Esses índices se estendem a outros equipamentos, como freezers, condicionadores de ar, computadores e motores elétricos. Desde 2010, o CFC, gás que geralmente estava presente em geladeiras e condicionadores de ar, não integra nenhum produto do setor eletro eletrônico. 

Há investimentos também dentro da estrutura das fábricas. As turbinas de hidrogeração usadas atualmente pelas indústrias eletroeletrônicas são cerca de 15% mais eficientes do que há dez anos, devido a inovações nas áreas de design e materiais.

.Cimento (Associação Brasileira de Cimento Portland – ABCP) - O setor se destaca em eficiência energética. Por meio de coprocessamento, utiliza resíduos (como pneus e biomassa) na produção de energia como combustível alternativo em fornos de cimento.
De um total de 870 mil toneladas de resíduos provenientes de diversos setores, 672 mil toneladas são utilizadas como insumos energéticos e 198 mil como substitutos de matérias-primas. Além disso, há recuperação de áreas de extração de minérios não-metálicos.

. Alimentos (Associação Brasileira da Indústria Alimentícia – Abia) - As indústrias de alimentos têm investido em certificações e programas de responsabilidade ambiental, além de atuarem fortemente no mercado de carbono. 

As marcas nacionais para comercialização de atum e sardinha são certificadas, respectivamente, pela Dolphim Safe, que garante a pesca seletiva sem atingir os golfinhos, e Friends Of The Sea, que segue critérios da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) na preservação da biodiversidade marinha.

Entre os projetos de responsabilidade ambiental, estão em vigor o Moratória Soja, criado em 2006, em que empresas filiadas à Abiove (Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais) não compram soja de áreas desmatadas da Amazônia, e o TAC, assinado por frigoríficos, para não comercialização de carne de gado criado em áreas desmatadas do Pará.

De 198 projetos de crédito de carbono no Brasil inscritos até novembro de 2011, 85, correspondendo a quase 43%, eram ligados á cadeia de alimentação. Até 2020, esses projetos terão retirado ou evitado a emissão de 34,8 milhões de toneladas de CO², o que equivale a plantar e conservar 2.654 km² de cerrado nativo por 20 anos.

Destaque-se, ainda, no setor de alimentação, que 90% da matriz energética é renovável. A principal fonte de energia é o bagaço da cana-de-açúcar, que respondeu por 75,7% da energia consumida em 2010. 

Há esforços também na economia de água. Entre 2004 e 2009, a relação entre uso de água utilizada e litro de cerveja produzida passou de 4,37 para 3,9 litros.

. Máquinas e equipamentos (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – Abimaq) - Uma das prioridades do setor é o desenvolvimento de máquinas e equipamentos cada vez mais eficientes no uso de energia elétrica. O projeto Cidade da Energia é um polo permanente, em São Carlos, no interior de São Paulo, onde são realizadas pesquisas sobre energia limpa. 

A Equipalcool, empresa localizada na cidade de Sertãozinho, em São Paulo, fez da sustentabilidade seu grande negócio. A empresa é especializada na produção de máquinas e equipamentos para geração de energia renovável. Aproveita resíduos sólidos, voltando todos os materiais para reciclagem dentro da cadeia, transformando rejeito em combustível para geração de energia elétrica.

Dados da Abimaq mostram que 90% das empresas do setor adotam políticas para minimizar o impacto ambiental e mais de 60% das grandes empresas têm certificação ISO 14.001. A associação criou, em 2009, o projeto Carbono Zero, que incentiva a adoção de medidas para reduzir as emissões de CO².

.Têxtil (Associação Brasileira da Indústria Têxtil – Abit) -Algumas empresas conseguiram neutralizar 100% de seus efluentes. Muitas usam uma máquina chamada “desfibriladeira” , que faz retornar os retalhos às origens (fibras de algodão). 

Há ainda propostas voltadas para a responsabilidade ambiental e social das empresas. O projeto Algodão Responsável Brasileiro (ABR) começa a operar na safra de 2012.

A BCI, Better Cotton Initiative, iniciou a produção no país do algodão BC (better cotton), uma proposta que inclui redução do consumo de água e de defensivos, melhoria do solo, das relações de trabalho e maior rastreabilidade. Já o Selo Qual (Programa Brasileiro de Autoregulamentação de Roupas Profissionais, Militares, Escolares e Vestimentas) certifica roupas profissionais e atesta se houve, na fabricação delas, a preservação do meio ambiente.

.Automotivo (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – Anfavea) -Os centros de P&D automotivos, no Brasil e no mundo, priorizam motorizações mais eficientes, de menor consumo e emissões, bem como combustíveis alternativos aos derivados de petróleo. 

O setor fez inovações sustentáveis em seus produtos. Houve uma importante expansão do uso de etanol, combustível renovável, em veículos, com a criação dos automóveis flex. O etanol começa agora a ser usado em motocicletas e aviões. Um automóvel fabricado hoje no país emite 28 vezes menos poluentes do que um veículo produzido há 30 anos.

Destaca-se também esforço na racionalização do consumo de água. Houve uma queda de 30% na quantidade de água utilizada para produção de um veículo nos últimos três anos – passou de 5,5 m³, em 2008, para 3,92 m³, em 2011.

.Construção (Câmara Brasileira da Indústria da Construção – CBIC) -A adoção de novos produtos, métodos construtivos ou modelos de gestão, com foco na sustentabilidade, assegura às empresas da construção maior eficiência no uso de insumos. 

A CBIC desenvolve o Programa Inovação Tecnológica, que difunde a inovação entre as empresas. Além da redução do impacto sobre o meio ambiente, essas inovações trazem como ganho direto a melhoria da qualidade de vida dos usuários de empreendimentos residenciais, comerciais ou públicos.

Entre os projetos patrocinados pela CBIC, está o Casa Eficiente, desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina, que propõe que as residências podem alcançar um nível de consumo zero de energia ou Zero Energy Building (ZEB). Nessa proposta, a quantidade de energia gerada na própria residência é suficiente para atender a toda demanda da família.

Há também o Light Steel Framing, sistema que torna o processo de construção muito mais ágil e sustentável. A técnica é aplicada na substituição das paredes comuns por estruturas de aço revestidas de gesso, que são mais leves e permitem uma redução substancial no consumo de materiais, como cimento, brita e areia.

. Elétrico (Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico – Fmase) -O setor adota práticas para reduzir o impacto socioambiental dos processos de instalação, como adoção de rede subterrânea, redes ecológicas, a gestão da arborização urbana e a utilização de boas práticas na construção. Os empreendimentos do setor elétrico incorporam estudos ambientais em todas as suas etapas, integrados aos estudos de engenharia. O segmento possui controles e medidas que diminuem os riscos de acidentes.

Há esforço na diversificação de fontes de energia. Faz parte deste esforço a geração de energia elétrica em biodigestores, por exemplo, que utiliza o gás oriundo de dejetos orgânicos de suinoculturas, promovendo também o saneamento ambiental.

O setor vai criar um Selo de Energia Elétrica Renovável (pelo lado da produção) e um Selo de Energia Elétrica Sustentável (pelo lado do consumo), reconhecidos internacionalmente, para certificar os produtos nacionais produzidos com um percentual expressivo de fontes renováveis. Os selos vão contribuir para a competitividade da indústria brasileira.

Cerca de 70% da capacidade de produção nacional de energia elétrica vem das usinas hidrelétricas de grande e médio porte, uma fonte renovável importante, que coloca o Brasil em segunda posição entre os países produtores de energia hidrelétrica. A matriz energética brasileira é três vezes mais limpa do que a mundial – o país possui matriz energética baseada em 89% de fontes renováveis, enquanto a média mundial é de 18%.

. Florestal (Fórum Nacional das Atividades de Base Florestal – FNABF) - O segmento está submetido a uma rígida legislação ambiental. Investe em florestas plantadas e políticas de compensação, além de atuar com técnicas de manejo florestal. A empresa Guavirá, de São José do Rio Claro, em Mato Grosso, além de investir em florestas plantadas de eucalipto e teca, desenvolveu um modelo sustentável de exploração de madeira com base em manejo florestal. 

Retira da floresta nativa entre quatro e cinco árvores por hectare e só retorna à mesma área após 25 anos ou 30 anos, período suficiente para o crescimento de novas árvores.

.Aço (Instituto Aço Brasil – IABr) - Na siderurgia brasileira, os índices de recuperação de água chegam a 97,6% e há um trabalho permanente de aproveitamento de resíduos e coprodutos. O setor gera mais de 600 quilos de coprodutos por tonelada de aço bruto, dos quais 80% são reaproveitados na produção de cimento, bases de estradas, fertilizantes, corretivos de solos, entre outras aplicações.

O carvão usado na siderurgia é obtido a partir de florestas plantadas, com certificações. As emissões de CO² das empresas do setor são compensadas pela fotossíntese das florestas. Há ainda o reaproveitamento do poder calorífico dos gases gerados na produção para co-geração de energia elétrica. O índice de reaproveitamento dos gases é de 98% na coqueria, 88% nos altos fornos e 64% nas aciarias. Esse esforço também ajuda a reduzir as emissões de CO².

A indústria do aço se comprometeu com o Ministério do Meio Ambiente a atingir, em até quatro anos, 100% de florestas plantadas para atender à sua demanda de carvão vegetal. Em abril, o Instituto Aço Brasil lançou, junto com o ministério, o “Protocolo de Sustentabilidade do Carvão Vegetal”, no qual ratifica o compromisso com a produção sustentável de carvão vegetal.

Está sendo executado o Programa de Qualificação de Fornecedores, no qual os negócios só são fechados com quem cumpre todas as exigências legais.

.Mineração (Instituto Brasileiro de Mineração – Ibram) - No setor de mineração, a reciclagem e o reaproveitamento de água chegam a 90% na exploração de ferro, ouro, bauxita e carvão mineral. Outros minérios apontam índices igual ou superior a 50%. Há também ações para aumentar a eficiência energética. O uso de minerodutos até as regiões portuárias otimiza a energia, já que a polpa de minério transportada com o auxílio da gravidade, retira caminhões das estradas, diminuindo o uso de combustíveis fosseis e, consequentemente, a emissão de gases do efeito estufa. 

A construção de hidrelétricas próprias, a instalação de painéis solares e o uso da biomassa são mecanismos usados pelo setor. Além disso, as empresas de mineração monitoraram as redes de energia sob concessão de órgãos públicos para reduzir perdas na transmissão.

Há ações na preservação da biodiversidade. Na exploração de minério de ferro, por exemplo, foi feita a manutenção de 1,1 mil hectares de área protegida, 7 mil hectares de revegetação e foram plantados 5 milhões de viveiros de mudas em 2010. 

.Petróleo e gás (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis – IBP) - Houve redução na geração de resíduos da produção de petróleo nos últimos dois anos. No Brasil, o volume médio de derrames de petróleo e derivados para o meio ambiente é 20 vezes inferior à média mundial.

O setor tem adotado medidas para redução das emissões de gases de efeito estufa nas atividades de produção de petróleo e gás natural e de refino. Entre elas, a construção de refinarias voltadas para a produção de diesel integrada à produção de petroquímicos, a introdução de plantas de GTL (gas-to-liquids) e o maior o controle de emissões em refinarias existentes.

A produção nacional de etanol e biodiesel tem peso importante no mercado brasileiro de combustíveis, representando 27% da produção nacional de petróleo. O programa de produção e uso de etanol de cana-de-açúcar no Brasil é hoje o mais importante programa de energia renovável do mundo.
 

O que está em jogo na Rio+20: Entrevista com Dra. Rachel Biderman pela Revista Época.


ALINE RIBEIRO




O Rio de Janeiro foi palco do encontro que transformou a agenda mundial do século 21. Na memorável Eco 92, reuniram-se de chefes de Estados a líderes indígenas, a fim de definir metas objetivas às nações para criar um novo modelo de desenvolvimento, menos agressivo ao planeta e socialmente inclusivo. 

Pela primeira vez, a luta pelo meio ambiente deixou as rodas da extinção do urso panda ou mico-leão-dourado para entrar no centro das discussões políticas e econômicas. 

Vinte anos depois, um evento da mesma monta tem a pretensão de debater os rumos da economia diante das novas demandas globais: a Rio+20. 

A advogada Rachel Biderman, doutora em Gestão Pública e consultora na área ambiental, respondeu, por e-mail, algumas perguntas sobre o que esperar da conferência.


ÉPOCA – O que está em jogo na Rio+20?

Rachel Biderman – Até hoje os sinais desanimam. Não há envolvimento significativo de lideranças de peso da Economia Mundial, em um evento que tratará de `Economia Verde´. Há fortes indícios de que chefes de Estado não estarão aqui, como estiveram na Rio 92. Esses são sintomas de que se tratará de mais um esforço de bem intencionados profissionais da área da sustentabilidade para chamar a atenção da sociedade humana sobre a urgência de temas ambientais e sociais. Mais um evento, que lança mais um diagnóstico, mostrando a gravidade e urgência desses problemas! Para que isso? Já estamos cheios de medir a febre do planeta! É preciso injetar recursos financeiros e ação política para alterar o curso dessa nave de casco rachado.


ÉPOCA – A organização está satisfatória?

Rachel – Apesar de a Conferência da ONU enfatizar o tema da erradicação da pobreza, numa tentativa de aproximar agendas e movimentos das áreas sociais e ambientais, na prática esse engajamento é limitado. Veja-se, por exemplo, a dificuldade encontrada em organizar uma única mensagem e um espaço agregador singular para manifestações da sociedade civil de todos os rincões do planeta. O espaço da Cúpula dos Povos, por exemplo, construído pela sociedade civil para abrigar seus representantes, não conseguiu transformar-se no pólo de atração de todas as manifestações e tendências, que se espalharão por hotéis, salas e edifícios do Rio de Janeiro, de maneira pulverizada e descoordenada. Isso é um desperdício de oportunidade.


ÉPOCA – Qual é o problema em descentralizar o evento?

Rachel – A difusão de eventos pela orla da cidade maravilhosa tem seu lado bom, por ampliar as possibilidades de mais encontros entre atores de diferentes redes e setores. Mas tem um lado péssimo. Seria belíssimo que houvesse apenas um encontro de todos os que resolverem ir até o Rio. Esse encontro único poderia dar espaço a "uma única voz", fonte de uma visão construída holística e coordenadamente, portadora de uma simples mensagem, em uníssono: atenção, é preciso agir agora! 

Uma imagem aérea do Rio de Janeiro tomado por manifestantes a favor de ação imediata parece utópica, mas é desejável, porque tudo o mais já foi tentado. E pouca atenção é dada pelos tomadores de decisão nos campos público e privado, a não ser em situações de catástrofe. Sim, Bono Vox poderia ser um dos ícones representando essa bandeira e poderia vir acompanhado de lideranças das artes, meio ambiente, empresas, povos tradicionais, mídia, estudantes, movimentos de sem terra, da política, enfim, de todas as tribos que vierem para o Brasil. Líderes e cidadãos comuns, misturados, poderiam vestir essa mesma camisa, numa marcha única. É hora do "ocupa Rio!".


ÉPOCA – Ainda há tempo para agir?

Rachel – A urgência dos problemas ambientais deixou de ser uma visão de românticos. Parece que o mais pragmáticos é que estão percebendo que é preciso mudar. E esses pragmáticos estão ´ocupando´ as praças de cidades em todo o mundo. Gritando, acampando, indicando o futuro que eles querem ter. São essas massas de jovens que já perceberam que serão herdeiros de problemas gigantescos, que precisam ser ouvidas. Se não dermos ouvidos a eles, estamos deixando de ouvir nossos filhos. 

A geração de jovens que está nas ruas traz uma mensagem clara, que não é fruto só de uma crise financeira pontual, é fruto de uma crise de civilização, que eles estão prontos para reconhecer e têm a coragem de dizer em alto e bom tom. Mas precisamos passar o bastão para eles e dar-lhes a chance de assumir os rumos do planeta, pois parecem estar com o senso de urgência mais acurado que a maioria dos governantes e tomadores de decisão da atualidade. É preciso dar uma chance para esses jovens que clamam!


ÉPOCA – Quais avanços e retrocessos na área ambiental o Brasil teve da Rio 92 para cá?

Rachel – Nos últimos anos, com o crescimento econômico acelerado e a atração de capital para mais investimentos, o Brasil tornou-se alvo de uma ansiedade de crescimento não experimentada anteriormente com tamanha intensidade. Isso teve e continua a ter forte repercussão negativa sobre o meio ambiente. Se de um lado há um aumento animador da taxa de empregos e crescimento de renda, por outro lado, parece que estamos aos poucos destruindo nossas galinhas dos ovos de ouro, que são a Amazônia e o Cerrado. Crescimento rápido, enriquecimento no curto prazo, a qualquer preço, são os motes de quem parece correr para aproveitar o máximo de seu momento no topo da pirâmide. 

Nesse modelo não há tempo nem espaço para planejamento de longo prazo, integrado, que tenha sustentabilidade ambiental e social no centro das decisões, de forma transversal. Resultado: repetimos um modelo de desenvolvimento predatório, o oposto do que preconiza a ONU em seus documentos e tratados sobre meio ambiente aprovados ao longo de três décadas. Tudo isso é o contrário do que se discute no documento que será gerado para a Rio + 20. Vivemos o paradoxo de dizer belas palavras, mas não implementá-las de fato. As futuras gerações rirão de nós? Como foram capazes de dizer tão belas palavras e não obedecê-las?


ÉPOCA – A legislação ambiental brasileira está mais frouxa?

Rachel – Nesse afã do crescimento temos assistido ao esfacelamento das leis ambientais, tidas até pouco tempo atrás dentre as mais avançadas do mundo. A legislação ambiental nunca sofreu alterações tão impactantes como as agora aprovadas pelo Congresso Nacional, na votação de projeto de lei que ´rasga´ o Código Florestal. Estima-se um aumento significativo de emissões de gases de efeito estufa em função dos desmatamentos potenciais daí decorrentes. Sem contar as perdas enormes de biodiversidade que ocasionarão. 

É importante lembrar que na biodiversidade destruída pelos desmatamentos autorizados poderiam estar respostas importantes para nossa economia ´verde´ do futuro e para a medicina. A ciência não deu conta de estudar ainda a profusão de espécies contidas nos biomas brasileiros. Pouco se investe nesse conhecimento e estamos jogando fora essa biblioteca da natureza, sem sequer conhecê-la. Se realmente estivéssemos construindo uma `Economia Verde´ como propõem tantos documentos já lançados pela ONU e ´think tanks´ de todo o mundo, estaríamos atentos às riquezas da biodiversidade brasileira, ao ´ouro verde´, que estamos deixando virar carbono. 

Quanto de alternativas para a agricultura, indústria farmacêutica e de cosméticos, dentre outros benefícios, poderíamos explorar de forma sustentável neste país, se houvesse essa visão da ´nova economia´?


ÉPOCA – Nosso sistema financeiro estimula a criação de uma economia verde? 

Rachel – Não há instrumentos econômicos, tampouco instalados por meio de políticas públicas ou iniciativas de mercado. Ou seja, faltam os principais mecanismos para viabilizar uma "Economia de Baixo Carbono", tão propugnada em discursos governamentais. Se houvesse vontade para implementar esse modelo, já teríamos feito os estudos da `Economia do Clima´ e da `Economia da Biodiversidade´ no Brasil, dentre outros necessários para se construir a base de um novo modelo de desenvolvimento. 

Enquanto isso, assistimos à distância investimentos colossais dos chineses, alemães e norte-americanos nas novas energias do futuro, que virão a substituir as fontes fósseis, como o petróleo. Nós, ao contrário, estamos apostando na energia do passado, investindo pesadamente no pré-sal.


ÉPOCA – Você acredita que, em nome do "progresso", estamos deixando de lado a proteção dos recursos naturais?

Rachel – A legislação de licenciamento ambiental também tem sido simplificada para permitir aceleradas aprovações de empreendimentos urgentes da agenda política e econômica dos dirigentes do país. O velho dilema sobre a incompatibilidade da proteção ambiental e desenvolvimento econômico tem sido substituído por uma prática incontestável do uso abusivo dos recursos naturais sem preocupação com sua preservação e capacidade de recuperação. 

Estamos repetindo o que a sociedade humana já fez em várias partes do planeta, deixando agora a marca verde-amarela nessa história da destruição. Com isso, comprometemos rios, nascentes, solos são contaminados e destruídos por práticas intensivas não sustentáveis, produzimos alimentos com taxas altíssimas de agrotóxicos, liberamos o uso de transgênicos, dentre outras ações arriscadas. Quem pagará a conta?


ÉPOCA – Qual o papel das empresas para o bom desempenho da Rio+20? Elas já estão se mexendo?

Rachel – Sim, as empresas estão se organizando em diferentes frentes. O CEBDS, que integra grande grupo de empresas internacionais, tem uma agenda definida para atrair lideranças empresariais para o Rio para debates de alto nível. O Instituto Ethos também está construindo sua agenda de debates junto com seus parceiros, e empresas integrantes de suas iniciativas. Um dos espaços mais interessantes que estão sendo propostos para se discutir a ´Nova Economia´ é o Forte de Copacabana, que provavelmente sediará iniciativa das federações das indústrias para promoção de debates abertos sobre os principais aspectos da pregada ´Nova Economia´ ou `Economia Verde´. 

Outra iniciativa bastante relevante é o Forum de Empreendedorismo Social e Negócios Sustentáveis que está sendo liderado pela Fundacion Avina, Ashoka, Fundação Roberto Marinho, ANDE e Skoll Foundation. Promete ser um dos espaços mais criativos onde empreendedores de todo o mundo apresentarão casos e discutirão desafios e soluções para seus novos modelos de negócios. Esse espaço inovador tratará de temas ainda pouco conhecidos para a maioria dos agentes econômicos, mas fundamentais para a instalação da ´Nova Economia´, pois envolvem atores que buscam promover negócios e ao mesmo tempo solucionar os maiores problemas da humanidade, como proteção do meio ambiente, geração de emprego e renda, acesso à saúde e educação, dentre outros.


ÉPOCA – Que tema pouco conhecido é esse?

Rachel – Dentre as manifestações que serão convidadas a se apresentar nesse Fórum, encontram-se movimentos e iniciativas ligadas aos temas de negócios sociais, mercados inclusivos, economia 2.0, empreendedorismo sustentável, ' fair trade', dentre outras focadas em pequenos e micro-empresários interessados fazer negócios de forma justa e sustentável. Esses empreendedores também são atrativo enquanto potencial de atendimento de demandas das grandes empresas, através de sua cadeia de fornecedores.


ÉPOCA – O tema mudanças climáticas está visivelmente de fora da pauta da reunião. Isso enfraquece a convenção?

Rachel – A Conferência não é sobre clima. Mas clima está dentro da agenda, o que não poderia deixar de ser, já que é o maior problema ambiental que aflige a humanidade. O principal resultado esperado pelos ambientalistas no Rio é a aprovação dos `Sustainable Development Goals´, que seriam metas factíveis, tangíveis, com as quais os governos teriam que se comprometer. E mudanças climáticas aparecem direta ou indiretamente nessa proposta. 

É preciso, no entanto, atentar que o espaço de discussão sobre mudanças climáticas é a UNFCCC e é no âmbito dessa convenção que se devem fixar regras mais contundentes, com metas de redução de emissão de gases de efeito estufa para os principais emissores do mundo. É preciso que a sociedade acorde e perceba o que está acontecendo com a UNFCCC, que deixou de ter a importância que tinha no passado, e padece de falta de compromisso político. A pressão da cidadania é mais que urgente nesse momento para cobrar dos governantes a rápida reinstalação de um processo de negociação eficaz, que gere em breve um tratado com metas relevantes de redução de emissões de GEE, que já atingem níveis dramáticos. O clima do planeta já está sofrendo alterações irreversíveis, mas ainda dá tempo para se evitar o pior. 

Mas é preciso agir rápido. Quem puder entender desse assunto para levá-lo para dentro de seu dia-a-dia em casa, trabalho, escola, família, deve fazê-lo. Pois todos nós temos que ser coadjuvantes na construção de um modelo de regulação do tema que permita à humanidade e outras formas de vida no planeta subsistirem às mudanças climáticas. O alarmismo não é discurso de ambientalista, mas de cientistas de painel nomeado pela ONU que não cansam de dizer em voz alta que esse é um problema gravíssimo. É preciso escutá-los, e agir!


ÉPOCA – Quais os pontos chaves para caminhar rumo a uma economia verde?

Rachel – É fundamental criar instrumentos econômicos para viabilizar esse novo modelo de desenvolvimento. Já se escreveu abundantemente a esse respeito e é hora de trazer os ´economistas ambientais´ para o centro dessa discussão. Eles têm muitas sugestões de como lidar com o problema. Meio ambiente não pode ser mais visto como algo externo à Economia. Não é insumo para a produção apenas. 

É base de sustentação de todas as formas de vida e principalmente da Economia. Pensar dessa forma é fundamental. A mentalidade exploradora destrutiva que tem imperado na história da presença humana no planeta só demonstra nossa capacidade de criar cataclismas. É preciso sacudir as regras ortodoxas da economia e oxigenar as fórmulas que contabilizam riqueza, sucesso, progresso.


ÉPOCA – Qual o papel das instituições financeiras neste processo?

Rachel – Não se pode deixar de mencionar que a comunidade financeira tem que se engajar mais. Jà avançaram em algumas direções passando a adotar princípios e práticas de sustentabilidade. Mas é preciso ir além, agora é hora de criar regras que impeçam investimentos que impliquem em desastres ambientais. É preciso baratear acesso aos recursos financeiros para as atividades inovadoras e sustentáveis que precisam de incentivo para se firmarem no mercado. 

Empoderar os cidadãos para que tenham voz e vez nos processos decisórios sobre meio ambiente também é fundamental. O Brasil dá bom exemplo, pois criaram-se ao longo das ultimas décadas inúmeros espaços colegiados para manifestação de entidades da sociedade civil a respeito de prioridades para a área ambiental. Mas é preciso dar condições para que as recomendações dos conselhos ambientais passem a ser implementadas e para isso o governo precisa destinar mais recursos para a área ambiental.


ÉPOCA – E o do governo?

Rachel – Novas formas de fazer política também são necessárias. E novos modelos de governo também. A democracia está em xeque. Sua reconstrução ou a formulação de um novo modelo são urgentes. O engajamento de cada um de nós nessa reflexão é fundamental. Os jovens já estão ´ocupando´ as ruas, sinal de que há um despertar que veio para ficar e crescer. 

A convocação dos jovens nas ruas é um alerta. Eles não admitem mais os modelos construídos até agora. Seria momento de nos reorganizarmos? A corrupção em tantos países e regimes humilha e despreza a todos nós que lutamos por justiça. O cansaço de tantos com os escândalos sem fim de governantes sem honra e sem vergonha deve ser transformado em energia criativa. Sim, é momento de nos engajarmos e sairmos do falso conforto que nos impusemos. 

O papel dos indivíduos não deve ser menosprezado. É na ação de cada pessoa que faremos as mudanças necessárias. Para que as pessoas se engajem nos movimentos necessários é preciso colocarem-se como co-responsáveis pelo destino do planeta e dos seres humanos e outros seres vivos. Esse despertar de consciência é urgente. A introspecção e reflexão podem ajudar cada um de nós a descobrirmos nosso papel nesse sistema complexo. 

Se cada um fizer sua auto-crítica, auto-estudo e colocar-se no coração pulsante do planeta, poderá entender como sua ação é fundamental para que os seres possam continuar vivos na Terra.