Está cada vez mais difícil achar água potável

Por Vinod Thomas e Ronald S. Parker*
A tarefa de fornecer água de boa qualidade onde ela é necessária está se tornando cada vez mais difícil em todo o mundo. Nas últimas décadas, os países têm feito investimentos em infraestrutura para aliviar a escassez, mas até agora, na maioria dos casos, a resposta a essa questão deixou de considerar o problema suscitado pela deterioração que os recursos hídricos vêm sofrendo. Para enfrentar de forma efetiva o problema da crescente crise da água será preciso vincular o seu uso à atenção ao meio ambiente.

Em muitos lugares, mesmo onde a água ainda é abundante, a destruição ambiental tornou caro demais o seu uso. Em outros que desfrutam um bom suprimento de água, ela é usada de maneira imprópria. As prioridades podem ficar de tal modo viciadas que, embora as cidades continuem desesperadas à procura de água, agricultores estão irrigando árvores frutíferas ou plantações de algodão no deserto. Ainda menos aceitável é que a água potável esteja sendo usada para manter jardins e campos de golfe, enquanto os pobres urbanos são forçados a pagar caro por ela, a qual compram em baldes.

Por causa disso, cerca de 700 milhões de pessoas em mais de 40 países são afetadas pela escassez. A intromissão humana nos ambientes hídricos é também um problema crescente. Até 2030 a Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que 75% da população mundial estará vivendo em áreas costeiras, pondo em risco as terras úmidas que ajudam a limpar o ambiente aquático, além de expor centenas de milhões de pessoas aos riscos relacionados com a água associados às mudanças climáticas.

O Banco Mundial é o maior financiador oficial de investimentos em água nos países em desenvolvimento. Os compromissos de empréstimo na última década somaram por volta de US$ 55 bilhões, com a China e a Índia no topo da lista de mutuários, seguidas pelo Brasil e pela Indonésia. Os projetos hídricos, cobrindo da irrigação e da hidroenergia à gestão de mananciais e vias aquáticas interiores, mostraram nos últimos anos maior sucesso do que outros setores na realização de seus objetivos.

Perdura, no entanto, o desafio de atender às atuais necessidades de água e implantar, ao mesmo tempo, estratégias inovadoras para tomar em conta as futuras necessidades. As áreas de ênfase caem em cinco campos principais ao longo do eixo do desenvolvimento aquático e da gestão ambiental.

Primeiro, o grupo que mais sofre a escassez de água consiste de 45 países, dos quais 35 são da África, que tem pouca. É necessário que a sustentabilidade hídrica se torne central nos seus planos de desenvolvimento, com medidas dimensionadas para atender às suas necessidades urgentes. Mesmo países ricos em água, como o Brasil ou a Tailândia, podem vir a enfrentar deficiência, ao caírem os níveis em represas e de fontes naturais.

Segundo, os lençóis aquáticos subterrâneos estão cada vez mais ameaçados por exploração excessiva, fluxos ambientais inadequados e contaminação. O esgotamento mais grave de águas subterrâneas ocorre no Oriente Médio, no norte da África e no sul da Ásia. Os esforços necessários abrangem monitoramento da qualidade da água, melhoramento dos aterros sanitários e redução da infiltração de águas superficiais contaminadas nos lençóis freáticos.

Terceiro, a restauração de ambientes degradados pode ter grandes impactos. Um projeto de proteção de terras úmidas costeiras no Vietnã, por exemplo, ajudou a reduzir a área de erosão costeira em nada menos que 40%.

Quarto, as Nações Unidas estimam que 1,8 bilhão de pessoas ainda não terá acesso ao saneamento básico em 2015. Será preciso colocar mais ênfase não somente em soluções de baixo custo no saneamento básico, mas também em ligações domiciliares aos sistemas sanitários. Entre os países em desenvolvimento, registrou-se o maior progresso na Ásia oriental.

Quinto, os investimentos em abastecimento de água precisam ser combinados com a gestão da demanda. A agricultura é a maior usuária na maioria das situações, nas quais tecnologias que melhoram a eficiência não são suficientes para melhorar o uso da água. Uma recuperação de custos maior em projetos hídricos seria útil. Estabelecer cotas e forçar o seu uso no consumo de água, um enfoque relativamente recente, merece cuidadosa avaliação.

Mesmo quando são reconhecidas, tem sido difícil converter tais prioridades em ação. Quando os atores-chave se sentam à mesa para negociar a distribuição de água, o meio ambiente fica esquecido. Raramente existe apoio à recuperação de um aquífero em declínio se ainda se pode extrair água dele, à restauração de faixas úmidas protetoras ou à manutenção de um fluxo suficiente num rio, para que a fauna silvestre possa sobreviver e a intrusão salina, ser prevenida.

O apoio político à reforma é muitas vezes dificultado por graves lacunas na compreensão da situação hídrica de um país. Melhores dados, monitoramento sistemático e divulgação dos achados são essenciais para a mobilização de recursos e a ação. O compartilhamento de conhecimentos apoia, assim, os desembolsos financeiros e possibilita melhores resultados no terreno.

Uma maneira de abrir uma janela de oportunidade seria apoiar processos de monitoração que mandam informações relevantes aos interessados públicos e privados. O exemplo do Brasil mostra que, tornando dados de água disponíveis para o público na internet, isso ajuda a aumentar a preocupação dos interessados, o que também ajuda a mobilizar a vontade política necessária para confrontar problemas de águas arraigados.

*Respectivamente, diretor-geral e consultor no grupo independente de avaliação do banco mundial (Washington D.C.)

** Artigo pblicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo(Envolverde/O autor)
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Município paulista se prepara para ser a Cidade da Energia

Um novo projeto feito na cidade de São Carlos promete transformar o município, localizado a 230 quilômetros da capital paulista, em uma referência internacional em termos de energia. Chamado de Cidade da Energia, o projeto deve apresentar as principais pesquisas feitas na área de energia limpa, sustentável e renovável dentro do Brasil.


Já conhecida como um importante polo tecnológico do Estado de São Paulo, além de contar com a presença de duas grandes universidades públicas - a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e a Universidade de São Paulo (USP) -, São Carlos quer agora tornar-se importante mundialmente na área de energia, unificando todos os estudos feitos no Brasil. O projeto vai envolver a Prefeitura de São Carlos, a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e o Governo Federal, através dos Ministérios da Agricultura, da Indústria e Comércio e do Turismo. "A Cidade da Energia visa concentrar em São Carlos tudo o que é desenvolvido no País em termos de energia renovável", explica o prefeito da cidade, Oswaldo Barba . "O Brasil desenvolve muito na área, mas os estudos estão dispersos", conta.
A ideia principal é facilitar a apresentação das novas tecnologias desenvolvidas no Brasil aos interessados em energia renovável. "Queremos ter em São Carlos um grande showroom com o que é desenvolvido. Quem quer trabalhar na área ou pegar informações não precisará mais ficar rodando o Brasil, basta vir para São Carlos e encontrará tudo por aqui", conta o prefeito. "A cidade funcionará como um grande nó das redes que fazem estudos na área."
A criação da Cidade da Energia, porém, não pretende concentrar os estudos feitos em energia renovável na cidade de São Carlos. "Nós já temos duas universidades que fazem diversas pesquisas na área, além de duas unidades da Embrapa. O nosso plano é juntar o que é desenvolvido aqui e em outras universidades e centros de pesquisa do Brasil", explica Barba. "Os estudos continuarão sendo feitos em laboratórios, como são atualmente. O que nós queremos fazer é desenvolver um espaço de demonstração do que é estudado." A demonstração, no caso, seria das tecnologias, dos equipamentos produzidos na área, além da realização de eventos relacionados a energia renovável e grandes feiras sobre energia limpa.
Obras
A implantação da Cidade da Energia será feita em três etapas. A primeira, já assinada, vai dar acesso a um espaço que atualmente pertence à Embrapa e dará lugar a um centro de exposições permanentes de tecnologias de energia, uma incubadora de projetos tecnológicos na área e um centro de debates sobre energia renovável. O projeto começa a sair do papel com a liberação de R$ 19,7 milhões do governo federal que possibilitará a duplicação da estrada de acesso ao espaço. Essa etapa está prevista para ser concluída até meados de 2011. "Será a duplicação de uma via de sete quilômetros com a inclusão de ciclovias. O custo total da obra será de 21,5 milhões de reais", conta o prefeito.
Já as etapas seguintes envolvem a infraestrutura do local e a instalação de todos os edifícios. O investimento previsto é de R$ 58 milhões em infraestrutura e mais R$ 35 milhões para a instalação dos prédios, que ficará por conta da Abimaq. "O projeto é de médio a longo prazo. Imaginamos que a Cidade da Energia esteja pronta até 2012, mas isso dependerá da captação de recursos", explica Barba.
O prefeito vê o projeto como fundamental para São Carlos. "A Cidade da Energia vai movimentar toda a economia do município, vai incentivar o turismo de eventos e negócios, a rede hoteleira, os restaurantes", comemora. "O principal é que ela vai dar uma visibilidade para nós. Vai ajudar na geração de empregos, além de atrair empresas da área que queiram se instalar na cidade", finaliza.
Por Daniel Junqueira – DCI

Presidente ressaltou importância da Copa Verde


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou ontem à África do Sul e discursou, em Johanesburgo, no evento de apresentação da Copa de 2014, que segundo ele será histórica.


 Foto: Crédito EFE

Ao subir ao palco após rápidas apresentações de grupos de artistas, Lula dedicou a primeira parte de seu discurso a agradecer a presença de algumas celebridades do esporte.
Com referências ao Corinthians e a Copas passadas, teve palavras para Romário, Carlos Alberto Torres, Bebeto, Parreira e Cafu, e brincou com Beckenbauer e Platini.
Pelo tempo usado apenas na apresentação, se desculpou, mas sem deixar de lado o humor.
"Disseram que eu tinha cinco minutos, mas como presidente a gente sempre pode extrapolar democraticamente", disse.
Na continuação, prometeu um Mundial histórico. "Podem contar comigo para o que for necessário, para fazermos a maior Copa do Mundo já feita", afirmou.
"Os brasileiros farão um Mundial tão bonito e emocionante como o da África do Sul. Em 2014, teremos uma economia ainda mais relevante no cenário internacional", completou.
O presidente prometeu ainda um Mundial transparente e com respeito ao meio ambiente.
"Faremos uma Copa verde como nossas florestas. A sustentabilidade será uma das marcas do país", apontou Lula, que, em referência à economia, disse que o Mundial mostrará ao mundo "o novo momento do Brasil".
Lula continuará na África do Sul pelo menos até sábado, quando deve voltar a Brasília. Inicialmente prevista, sua presença na final, no domingo, não está confirmada.
Fonte:  Portal Copa 2014.

Energia renovável responde por 20% do consumo na Europa

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Energia gerada pelos ventos respondeu por 37,1% dos 62% da nova capacidade de geração de eletricidade instalada na União Europeia em 2009/Foto: clarkmaxwell
As fontes renováveis de energia, alternativas aos combustíveis fósseis, responderam por 19,9% (ou 608 terawatts-hora – TWh) do consumo total de energia na União Europeia (3042 TWh) em 2009. Elas também foram correspondentes a 62% da nova capacidade de geração de eletricidade instalada no mesmo período. Os dados são do relatório 2010 Renewable Energy Snapshots, publicado pelo Joint Research Centre (JRC) – uma instituição politicamente independente que representa e defende os interesses da UE.
Em relação ao consumo, a energia hidrelétrica respondeu pela maior parcela entre as fontes renováveis, com (11,6%), seguida pelas energias eólica (4,2%), biomassa (3,5%) e solar (0,4%). Sobre a nova capacidade de geração instalada em 2009, a energia eólica ficou em primeiro, com 37,1%, seguida pela fotovoltaica (21%), biomassa (2,1%), hidrelétrica (1,4%) e energia solar concentrada (0,4%) - sistema que usa lentes ou espelhos para concentrar uma grande área de luz solar.
Já no que diz respeito às fontes de geração não renováveis, da capacidade instalada em 2009 o gás ficou em primeiro, com 24%, seguido pelo carvão (8,7%), óleo (2,1%), incineração de lixo (1,6%) e energia nuclear (1,6%). Dessas alternativas, apenas a matriz energética nuclear não é considerada suja.
Caso as taxas de crescimento atuais forem mantidas, em 2020 até 1400 TWh de eletricidade poderá ser gerada a partir de fontes renováveis, aponta o relatório, o que representaria de 35% a 40% do consumo de eletricidade geral estimado para os países que compõem a UE.
Bons ventos
A energia eólica é destacada no documento, uma vez que superou já em 2009, com uma capacidade instalada total superior a 74 gigawatts (GW), a meta estabelecida anteriormente para 2010, de 40 GW. Os bons ventos fizeram com que a European Wind Association estabelecesse agora uma nova meta: de ter uma capacidade instalada de 230 GW até 2020.
De acordo com o presidente executivo da Associação Europeia de Energia Eólica (Ewea), Christian Kjaer, todas as necessidades energéticas da Europa poderão ser atendidas pelas energias renováveis em 2050, sendo que só a energia eólica deverá corresponder a 50% de tal procura.
“O potencial existe e a indústria está preparada para isso. A única coisa que temos de fazer é manter as atuais taxas de crescimento [da energia eólica] em terra e no mar”, comentou Kjaer. “As outras energias renováveis podem ‘facilmente’ satisfazer a outra metade das necessidades energéticas da Europa em 2050”, acrescentou.
Outro destaque é a energia de biomassa. De acordo com o relatório da UE, se as taxas de crescimento atuais forem mantidas, a eletricidade gerada dessa fonte poderá dobrar de 2008 a 2010, de 108 TWh para 200 TWh.
Quanto à energia fotovoltaica, desde 2003 a capacidade instalada tem dobrado a cada ano. O documento também destaca o potencial da energia solar concentrada. Atualmente, a maioria dos projetos com a nova tecnologia está concentrada na Espanha.
Brasil
Segundo dados de 2008 da Associação Latino-Americana de Energia Eólica (Lewea, na sigla em inglês), o Brasil ocupa a primeira colocação na América Latina tanto em relação ao potencial eólico (regiões adequadas para a instalação), como em capacidade de potência instalada (volume de Megawatts atuais) – 140 mil MW e 247 MW, respectivamente.

Relatório "O Estado do Mundo" 2010

Dados são do relatório ‘O Estado do Mundo’ que terá versão brasileira lançada nesta quarta-feira pelo Instituto Akatu
Que o consumo vem crescendo, todos sabemos. As dimensões é que assustam. Em 2006, pessoas no mundo todo gastaram US$ 30,5 trilhões em bens e serviços (em dólares de 2008). Em 1996, esse número foi de US$ 23,9 trilhões e em 1960 a humanidade consumiu o equivalente a US$ 4,9 trilhões. Só em 2008, pessoas no mundo todo compraram 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones móveis (celulares).


Parte desse aumento é resultante do crescimento populacional, mas o número de seres humanos cresceu apenas a uma razão de 2,2 entre 1960 e 2006. Estas são algumas das conclusões do relatório “O Estado do Mundo”, publicado pelo The Worldwatch Institute com versão brasileira confeccionada e divulgada pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente nesta quarta-feira (30.06).
“O relatório é bastante contundente, mas o que mais chama atenção é o fato do consumo ter crescido seis vezes ao mesmo tempo em que a população cresceu apenas 2,2 vezes. Quer dizer: o consumo por pessoa cresceu três vezes nos últimos 50 anos”, destaca o presidente do Instituto Akatu, Hélio Mattar.
Segundo o relatório, com o aumento da renda discricionária, as pessoas passaram a gastar mais em bens de consumo: alimentos mais pesados, moradias maiores, televisões, carros, computadores e viagens de avião.
“A inclusão das classes menos favorecidas na sociedade de consumo é um fato, mas não explica o crescimento desmesurado do consumo. Essa população está acrescentando bens como o celular e o computador a seu rol de produtos. Mas o relatório mostra que os 16% mais ricos do mundo são responsáveis por cerca de 78% do total do consumo mundial. O que quer dizer que os 84% restantes são responsáveis por apenas 22% do total do consumo que se observa hoje no planeta”, diz Mattar.
De acordo com um estudo do ecologista de Princeton Stephen Pacala, os 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo (aproximadamente 7% da população mundial) são atualmente responsáveis por 50% das emissões globais de dióxido de carbono, enquanto os 3 bilhões mais pobres são responsáveis por apenas 6%.

Desperdício

A velocidade com que os produtos duráveis ficam ‘obsoletos’ vem aumentando. E o desperdício aumentou também. Um bom exemplo são os aparelhos celulares. Em 2007, as pesquisas indicavam que o brasileiro trocava de celular, em média, a cada dois anos. Hoje, troca a cada 1,3 ano. “As companhias induzem a troca e os consumidores compram o peixe. As pequenas modificações que são feitas nos aparelhos não são realmente relevantes, mas o consumidor as considera importantes e acaba fazendo a troca”, afirma Mattar.
O resultado de tanto desperdício é que o uso dos recursos naturais está ultrapassando a capacidade que o planeta tem de provê-los. Entre 1950 e 2005, por exemplo, a produção de metais cresceu seis vezes, a de petróleo, oito, e o consumo de gás natural, 14 vezes.
Hoje, são extraídas 60 bilhões de toneladas de recursos anualmente – cerca de 50% a mais do que há apenas 30 anos. O europeu médio usa 43 quilos de recursos diariamente, e o americano médio, 88 quilos. Atualmente, o mundo extrai o equivalente a 112 edifícios Empire State da Terra a cada dia.
Em 2005, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio (MA), concluiu que aproximadamente 60% dos serviços providos por ecossistema – regulação do clima, abastecimento de água doce, tratamento de detritos, alimentos de pesqueiros e muitos outros serviços – estavam sendo degradados ou usados de modo não sustentável.
Segundo o relatório, as mudanças em um dos serviços do ecossistema em particular – regulação do clima – são especialmente alarmantes. Depois de permanecer em níveis estáveis nos últimos 1.000 anos, aproximadamente 280 partes por milhão, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) estão hoje em 385 partes por milhão.
Para acessar o relatório “Estado do Mundo 2010″, na íntegra clique AQUI

Sustentabilidade com a mão na massa

Nenhuma empresa levou tão ao extremo a ideia de educar para a sustentabilidade quanto o Banco Real, hoje Grupo Santander Brasil. O melhor exemplo dessa disposição é o Sustentabilidade na Prática: Caminhos e Desafios – um curso de imersão de dois dias dirigido a empresas de diferentes portes interessadas em inserir o tema em sua cultura e gestão.
Nas palavras de Fábio Barbosa, presidente do grupo, a iniciativa tem o objetivo de partilhar as práticas e o conhecimento adquirido pelo Banco em 10 anos de sustentabilidade. “Queremos encurtar o caminho na direção de um mundo mais sustentável”, diz ele em vídeo que abre o programa.
Iniciado em 2007, o curso já capacitou 2.500 pessoas de 1.400 organizações. No último dia 6 de maio, participei a convite da 27a turma, na capital de São Paulo, movido por um misto de interesse jornalístico e afinidade profissional com a “causa.” Fui pensando em colher impressões para este artigo, mas também em testemunhar o que (conteúdos) e como (metodologia) se ensina e, principalmente, o perfil e os anseios de quem está disposto a aprender.
Logo de cara, uma primeira boa surpresa: contrariando a minha expectativa de que ocuparia uma cadeira em sala de, no máximo, 30 alunos bem comportados, deparei-me com cerca de 230 executivos de 138 empresas. Havia mais gente ali do que na maioria dos eventos de sustentabilidade aos quais costumo ir por dever de ofício.
Gente de todas as idades, formações, cargos e contracheques. Rostos desconhecidos misturados aos de executivos tarimbados, como Luiz Ernesto Gemignani, ex-presidente da Promon. A diversidade do grupo seria uma pista de que as empresas estão mesmo querendo construir juntas um modelo de negócio mais sustentável?
Se a intenção era imergir, imergi. Escolhi uma mesa de trabalho na qual juntei-me a representantes de quatro empresas que não frequentam as capas da revista Exame: a Casa Carrifer (corte e dobra de aço); a Quinterra Terraplenagem; a Eletromecânica Dinâmica (limpadores de párabrisa) e a By Kami (de tapetes). Aproveitando a deixa inicial oferecida por Sandro Marques, superintendente da área de desenvolvimento sustentável e um dos condutores do programa, engatei uma pergunta óbvia para tentar entender o que fizera aqueles quatro executivos trocarem sua labuta diária por um curso de sustentabilidade. “Aprender sobre tema cada vez mais estratégico”, responderam em uníssono.
Três deles alegaram, no entanto, estar ali por causa da importância do tema como exigência nos processos de certificação ISO 14001 e também em cláusulas contratuais de prestação de serviço. Um quarto, o mais jovem do grupo, afirmou buscar “ferramentas” para potencializar a “vocação sustentável” de sua empresa.
Na dinâmica seguinte, Maria Luiza Pinto, diretora-executiva de desenvolvimento sustentável do Grupo Santander Brasil, provocou os participantes sobre qual seria o principal desafio de sustentabilidade em suas empresas.
No meu grupo e, depois, nas intervenções feitas ao microfone por outros participantes, ouvi uma mesma resposta, com pequenas variações: envolver os funcionários e colaboradores, mudar maneiras de pensar e fazer. “Há múltiplos jeitos de fazer sustentabilidade numa empresa. O que adotamos não é o único nem o melhor. Ao apresentá-lo desejamos apenas que vocês encontrem o mais adequado para o negócio de suas organizações”, afirmou Maria Luiza.
No primeiro dia, o programa começa com uma exposição do percurso adotado pelo Banco, desde o diagnóstico e a definição de “essências”, como, por exemplo, a inserção do conceito no core business e o uso de janelas de oportunidade, até os diferentes modelos de governança (comitês e conselhos, grupos multidisciplinares, áreas funcionais, diretoria de desenvolvimento sustentável e consultoria interna) e os aprendizados obtidos ao longo do processo.
Aborda também os indicadores de gestão selecionados (Econômico, Funcionários, Governo e Sociedade, Meio Ambiente e Fornecedores), os desafios de mercado, produto e posicionamento, processos, política e tecnologia.
No segundo dia, ressalta os esforços de engajamento de stakeholders, o tema da diversidade, as muitas iniciativas possíveis de educação e os dilemas da comunicação da e para a sustentabilidade.
Conceitualmente bem urdido e sob o apoio de metodologia que privilegia a interação, o curso se estrutura na experiência do Banco Real, mas não se esgota nela. Ao longo dos dois dias, os participantes são estimulados a exercitar os conteúdos – com o suporte de uma apostila, um caderno chamado Diário da Jornada e painéis de especialistas – escrevendo suas próprias “rotas” e registrando, por escrito, reflexões que depois serão úteis no retorno à empresa. “Essas rotas são como um mapa para orientar a mudança na empresa. Com elas me sinto mais seguro e preparado”, confessou-me ao final do curso um entusiasmado Arthur Rodrigues Verechi, analista de Marketing da By Kami.
Veja a íntegra do artigo em www.ideiasustentavel.com.br
Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da consultoria Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade.
ricardo@ideiasustentavel.com.br
www.ideiasustentabel.com.br

Stakeholder, esse desconhecido !

Interagir com os diversos públicos é o desafio para as empresas que querem manter relação de transparência com seus investidores e com a sociedade.
 
Acabou o “business as usual”. Ou seja, a maneira de fazer negócios e de gerir empresas mudou, e mudou muito para as organizações que pretendem se manter na ativa neste século XXI. Uma das transformações mais radicais está na forma como as empresas se relacionam com seus diversos públicos, ou stakeholders. Antes era simples decidir quais eram os grupos de interesse das empresas: resumiam-se a acionistas, funcionários, colaboradores e clientes. Hoje, definir quem são as pessoas e comunidades com as quais as empresas devem manter relações privilegiadas, quais opiniões são importantes e quais ações podem impactar de forma tangível ou intangível a empresa é um desafio ainda em aberto para muitas organizações.
Para muitos especialistas, a maior parte das empresas ainda não sabe como estabelecer um diálogo franco com seus stakeholders, diz o jornalista e consultor de empresas Fernando Rios: “É fácil quando a conversa é sobre dinheiro, com acionistas ou clientes, mas torna-se difícil quando envolve a sociedade”. As empresas, segundo Rios, não sabem ouvir as demandas sociais e, algumas vezes, não acreditam que tais demandas sejam legítimas ou tenham a ver com seu negócio. “Às vezes, é necessária uma intervenção da mídia para que as organizações cumpram seus deveres”, explica.
O jornalista e consultor em sustentabilidade Luciano Martins Costa menciona algumas dificuldades adicionais para que as empresas identifiquem claramente seus stakeholders. Para ele, em alguns setores esses personagens migram, trocam de posição em termos de relevância conforme a época do ano, ou conforme o estágio de um projeto ou produto. E cita como exemplo a relação entre grandes varejistas e seus clientes no momento de vendas maciças, como o Natal, e a natureza dessa relação no pós-venda. “No setor de mineração, como deve ser encarado e tratado quem vive numa favela à margem da ferrovia que transporta minérios? É um stakeholder? Como estabelecer e manter relações com ele e criar uma parceria para evitar acidentes que possam paralisar o fluxo de trens? Pouquíssimas empresas têm estratégias que contemplem essas sutilezas”, afirma.
Uma das maneiras consideradas mais eficazes de relacionamento com múltiplos públicos é estabelecer canais de comunicação de mão dupla. Vilmar Berna, um dos mais conhecidos jornalistas que cobrem temas socioambientais no Brasil, ganhador do prêmio Global 500 das Nações Unidas, vê na comunicação o calcanhar-de-aquiles desta relação. “Ainda há a cultura do ‘nada a declarar’, outras ainda acreditam na filantropia na relação com a sociedade, financiam projetos irrelevantes e acham que, com isso, estão comprando a lealdade de seus interlocutores”, explica. Para Berna, seria muito mais fácil se, ao errar, a empresa buscasse o diálogo com os públicos atingidos, montasse um sistema de monitoramento que incluísse a sociedade. “Isso cria um vínculo de confiança e respeito mútuo entre os stakeholders e os gestores da empresa”, explica.
Na construção de relatórios de sustentabilidade, uma das etapas é justamente o diálogo com os stakeholders. É parte do que os especialistas chamam de “materialidade” das ações relatadas. As empresas precisam validar aquilo que relatam junto a seus públicos, e este é um momento de muita expectativa e alguma tensão. Segundo Aron Belinky, também consultor em responsabilidade social, existe falta de preparo das organizações na hora de ouvir. “Algumas vezes a empresa ouve, mas não sabe o que fazer com a mensagem que recebeu, outras vezes as pessoas encarregadas de ouvir não gostam do que escutam e engavetam a mensagem”, explica. Ele acredita que as empresas não veem nessas práticas uma distorção e que “elas são normalmente explicadas com chavões do tipo ‘não podemos prejudicar nossas metas’, ou ‘o que foi dito não era importante’”, conta, com a experiência de quem já participou de centenas de reuniões com empresas.
Para o professor Evandro Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a questão das relações entre a empresa e seus públicos é cultural. “É preciso mudar as mentes para que as pessoas comecem a pensar de forma diferente nos processos de relacionamento e tomada de decisões”, diz. Ele criou uma metodologia de trabalho chamada Gestão da Mente Sustentável, em que procura alinhar palavras a atos concretos. Dessa forma as pessoas e empresas passam a atuar com foco mais objetivo e com maior possibilidade de sucesso. Ele acredita que uma interação organizada a partir de fatos e atitudes pode ser mais eficiente do que simplesmente discursos e intenções.
O fato é que as empresas estão muito despreparadas para incorporar opiniões contrárias aos seus interesses e reagir de forma positiva em relação a elas. Esse certamente é o grande avanço necessário nos próximos anos, e os relatórios de sustentabilidade jogam o tema sobre a mesa. Empresas inteligentes vão perceber que, antes de críticas, as opiniões contrárias são importantes dicas de como agir em um mercado em constante mutação. (Envolverde)
Material produzido em parceria pela Envolverde e pela revista Razão Contábil.